quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

[CAPÍTULO 3, PARTE 1] Beleza e Misoginia - Sheila Jeffreys (2005)

TRANSFEMINILIDADE

      Homens “montados” revelam a nua realidade do poder masculino.

      Práticas de beleza e feminilidade caminham juntas mas não são essencialmente propriedades das mulheres. Neste capítulo eu analiso a feminilidade praticada por homens para iluminar os significados culturais desse comportamento. O fato de que homens podem ser expoentes mais ardentes da prática da feminilidade do que mulheres tem se tornado mais claro em décadas recentes conforme a profissão médica, a pornografia e a internet espalharam um culto massivo à feminilidade entre homens na forma do transsexualismo, transgenerismo e travestismo. Feminilidade é sexualmente excitante para homens que a procuram porque representa status subordinado e dessa forma satisfaz interesses sexuais masoquistas. A feminilidade masculina é bem diferente da feminilidade que é uma exigência do status subordinado das mulheres, porque as mulheres não escolhem a feminilidade mas tem que se curvar a ela. Feminilidade não é uma forma de fantasia sexual para mulheres mas sim o difícil e frequentemente ressentido trabalho requerido daquelas que ocupam o status social subordinado. Entretanto as formas que a feminilidade aparente tomam são bastante similares em ambos os casos e as práticas de beleza são idênticas. Enxergar o que homens fazem dela irá mostrar que a feminilidade, ao invés de ter qualquer conexão com biologia, é socialmente construída como o comportamento de subordinação.

DEFINIÇÕES DE TRAVESTISMO/TRANSSEXUALISMO
      A prática da “feminilidade” por homens tem sido, e ainda é largamente definida e corroborada pela medicina. Sexólogos do século XIX deram nomes e diagnósticos para comportamentos que não se encaixavam nas compreensões de masculinidade e feminilidade “corretas” (Jeffreys, 1985). Eles estavam envolvidos em controle social do comportamento desviante que era visto como ameaça à família heterossexual que está na base da dominância masculina. No século XX esses comportamentos “anormais” se tornaram domínio da psiquiatria. Até recentemente a medicina tem tendido a afirmar que existem claras e identificáveis diferenças entre travestis, que simplesmente gostam de se vestir com roupas femininas ocasionalmente e transexuais, que querem viver como mulheres. A criação dessa distinção foi necessária para que médicos pudessem identificar os que mereciam cirurgia e os que não eram entendidos como transexuais “reais”. Transexuais foram identificados como os que sofriam de uma condição médica de transtorno de identidade de gênero no qual se consideravam mulheres e isso foi explicado como uma primariamente biológica, ou ao menos uma distinta e essencial, condição.
      Feministas construcionistas sociais não aceitaram essa explicação biológica. Na primeira e ainda assim mais compreensiva crítica feminista à construção da medicina do fenômeno do transexualismo (publicada primeiramente em 1979), Janice G. Raymond explica que a “causa primeira” do fenômeno é a ideia política de que devem haver dois gêneros distintos que fundam a sociedade patriarcal (Raymond, 1994). Ela enxerga transsexualismo como uma construção da ciência médica feita para atingir três propósitos: lucro para cirurgia, experimentações com objetivo de se dominar a construção de partes do corpo e propósito político de alocação em categorias aceitáveis de gênero dos rebeldes de gênero que são vistos como perturbando o sistema de dois gêneros da dominância masculina. O transexual, ela argumenta, simplesmente troca um estereótipo pelo outro e dessa forma reforça o tecido social sexista. Transsexualismo, nesta análise, é profundamente reacionário, uma forma de prevenir a ruptura e eliminação de papéis de gênero que estão na base do projeto feminista, e “A solução médica transforma-se em um ‘tranquilizador social’ reforçando o sexismo e sua fundação de conformidade com o papel sexual” (Raymond, 1994, p. xvii).
      A crítica feminista não tem, infelizmente, feito com que os sexólogos parem de dominar e reforçar as categorias de transfeminilidade. A distinção que sexólogos fazem entre travestismo e transsexualismo tem sofrido uma grande tensão no tempo da Internet com materiais, grupos e revistas na web espalhando uma proliferação de práticas e fronteiras rompidas (McCloskey, 1999). Os que podem uma vez ter se classificado como travestis – ou seja, homens heterossexuais que permanecem com suas esposas e ocasionalmente se travestem para seu prazer – agora podem ter acesso a hormônios e  mais facilmente passar para o transsexualismo. Alguns desses homens agora dizem a médicos que querem ser metade transsexuais, ganhando seios mas mantendo seus pênis (Blanchard, 1993). Eles então retém a habilidade de experienciar a excitação do masoquismo associada a ter seios, através de seus pênis. O aumento de seios, ou ginecomastia, pode ser alcançado por meio de tratamento hormonal.
      Apesar de alguns crossdressers sustentarem que existe uma clara distinção porque eles não querem ser tentados pela homossexualidade, outros ficam felizes em dizer que existe uma pequena diferença. Charles Anders, autor de The Lazy Crossdresser (2002), nos diz que existe uma diferença bem pequena entre crossdressers e transsexuais, “Existe uma piada comum na comunidade transsexual: ‘Qual a diferença entre um crossdresser e um transexual? Dois anos.’ Às vezes a parte final é ‘um ano’. Muitos, talvez a maioria de transsexuais homem-para-mulher começam como crossdressers, então tendem a ver travestis como seu estado larval” (Anders, 2002, p. 5). Peggy Rudd, autora de um manual de instruções para esposas de crossdressers, cita uma pesquisa na qual crossdressers foram perguntados se fariam cirurgia se pudessem pagar (Rudd, 1999, p. 91). Aparentemente 24% “deixaram a questão em aberto” e o que determinou sua resposta foi quanto apoio têm de duas esposas e famílias para ser crossdressers; isto é, nada a ver com se eram “realmente” mulheres. Rudd diz, “Então mulheres devem aceitar ou homens farão cirurgia” (1999, p. 91). Biologia não é vista como tendo muito a ver com isso. Os homens estão fazendo escolhas sobre o quão longe querem ir.
      Nos anos 1990 um movimento transgênero surgiu no qual homens e algumas mulheres alegaram que a operações de ressignificação de gênero não eram necessárias àqueles que “transicionaram” de um “gênero” para outro (Bornstein, 1994; Raymond, 1994) porque eles poderiam ser transgêneros em suas mentes, e por assumir a aparência do gênero oposto enquanto mantinham suas partes do corpo intactas. A vasta maioria dos que agora estão sob o guarda-chuva de políticas “transgênero”, entretanto, fizeram cirurgia ou tomam hormônios para que seus corpos mudem de alguma forma. Alguns ativistas transgêneros alegam que sua prática era revolucionária porque estavam mostrando que “gênero” era socialmente construído ao invés de “natural” ao adotar o gênero feminino como fisicamente inteiramente homens biologicamente e vice versa. De fato, como eu argumentei em outro lugar, a ideia de “gênero” transitando é essencial ao reforçar a necessidade da feminilidade e masculinidade (Jeffreys, 1996). Bernice Hausman (2001) fornece uma crítica efetiva ao que ela vê como defesa “queer” do transsexualismo como atividade revolucionária que transgride o gênero. Ela diz que Kate Bornstei e outros teóricos queer da prática:
      Sugerem um certo essencialismo de gênero: que gênero como uma forma de organização identitária é central para o projeto humano, que cada indivíduo tem um gênero ou acredita em si como um gênero, ou que o gênero em alguma tendência (como binário ou plural) é necessário para ou ao menos inevitável parte do tecido social.
(Hausman, 2001, p. 473)
      Feministas que querem destruir o gênero, porque o enxergam como um produto da dominância masculina, não “transicionam” de gênero, elas simplesmente passam por cima dele. Transgêneros são tão apegados a noção de gênero, mesmo que de um diferente do que vieram, que gastam enormes quantias de tempo, energia e dinheiro para obter seu gênero escolhido. Políticas transgênero são fundamentalmente conservadoras, dedicadas a reter os comportamentos das classes dominante e subordinada da supremacia masculina – masculinidade e feminilidade.
      O movimento transgênero pede por reformas legais, médicas e sociais e para ser isento de análise política, sobre a base de que transgêneros são uma maltratada minoria biologicamente distinta. Como minoria, argumenta a organização americana, Aliança Nacional de Advocacia Transgênera (NTAC), eles sofrem:
      Injúria, perda de emprego, dificuldade de ser recontratados, perda de seguro, divórcio e perda da visitação dos filhos, ligações telefônicas obscenas e outros tipos de violência de ódio, rejeição dos pais e irmãos, corte em lugares de adoração, aborrecimentos causados pela polícia entre outros.
(Aliança Nacional de Advocacia Transgênera, 2000)
      NTAC faz campanha para que homens que “se constroem mulheres” (MTFs) e mulheres que “se constroem homens” (FTMs) sejam capazes de ter casamentos “gay” e não ter que revelar seu status genital para ser legalmente aceitos como membros de seu “gênero” escolhido, ou seja, tomar hormônios sem cirurgia é suficiente.
      Por trás da escolha pela feminilidade por parte de homens está sua fascinação por exercer o papel subordinado de “mulher” para a satisfação sexual masoquista que isso oferece. Para um numero que crescente de homens, a julgar pela pornografia, sites, lojas e serviços que os servem, os comportamentos e privilégios da feminilidade são um tipo de brinquedo sexual. Neste capítulo eu analiso esses recursos da internet para mostrar que as práticas masculinas de feminilidade não são sobre ser “mulheres” mas sobre adotar os comportamentos prescritos socialmente para o grupo subordinado para aproveitar a satisfação sexual masoquista. Eu argumento aqui que o transgenerismo por parte de homens precisa ser entendido como originado em uma fantasia sexual socialmente construída ao invés de um constituinte de condição biológica. Travestismo, transsexualismo e transgenerismo podem ser vistos como sendo práticas sexuais ao invés de tornar aqueles criados como “homens”, “mulheres”. De fato ser criado como “homem” pode ser uma precondição necessária a prática da feminilidade por homens. Eles perseguem a “feminilidade” porque ela representa a oposição subordinada à masculinidade e oferece os prazeres do masoquismo. Essa busca pode ter significado apenas para homens que entendem que seus prazeres masoquistas se dão em contradição a seu status masculino. Masculinidade produz o comportamento “feminino” de homens ao invés de estar em contradição a ele.
      Existe um certo apoio da medicina à compreensão da prática da feminilidade por homens como uma fantasia sexual. Ray Blanchard, um psicólogo no Instituto Clarke em Toronto, um dos dois lugares que realizam cirurgia transsexual no Canadá, cunhou o termo “autoginofilia” para descrever “a propensão do homem a ser excitado sexualmente por pensar em si mesmo como uma mulher” (Blanchard, 1989, p. 616). Blanchard desenvolveu pesquisas com homens que foram à clínica reportando disforia de gênero e procurando por cirurgia transsexual. Ele, de certa forma arbitrariamente, divide esses homens em heterossexuais e homossexuais de acordo com o objeto primário de seu interesse sexual. Disfóricos heterossexuais são homens que procuram permanecer com suas esposas ou parceiras mulheres e estão propensos a definir a si mesmos como “lésbicas” se fizerem a cirurgia. Homossexuais ou androfílicos disfóricos de gênero são aqueles que são sexualmente atraídos por homens e permanecem dessa forma se realizam a cirurgia. Os homens que se identificam como heterossexuais são colocados em categorias de “autoginófilos” Os que procuram cirurgia transsexual exibem a forma mais extrema do comportamento autoginófilo. Eles são excitados sexualmente pela fantasia de si mesmos em corpos femininos.
      Em formas menos extremas, autoginófilos se excitam sexualmente por coisas como vestir roupas “de mulher” ou envolver-se em atividades “de mulher”. Em um caso que Blanchard descreve o homem teve “fantasias masturbatórias iniciais” ao “ajudar a empregada a limpar a casa ou que estava sentado em uma aula de meninas na escola (...) suas atuais fantasias masturbatórias eram fazer tricô em companhia de outras mulheres e estar no salão de beleza com outras mulheres” (Blanchard, 1991, p. 236). Outro paciente “ficou sexualmente excitado ao depilar as pernas e contemplar o resultado” (p. 237). A infindável corrente de relatos autobiográficos de suas motivações por crossdressers orgulhosos que tem sido publicada nos últimos anos torna claro que a excitação sexual é o que os motiva (McCloskey, 199; Anders, 2002; Miller, 1996). O crossdresser heterossexual “Rachel Miller” escreve “Se homens percebem algo como sexy em uma mulher, por que não poderiam ver isso como sexy em si mesmos? Parece razoável para mim” (Miller, 1996, p. 55). Isso parece razoável para mim também, que homens também podem projetar as roupas e o comportamento que representa a subordinação de mulheres para sua excitação, ou pegar um atalho no processo ao adotar isso em si mesmos. Ele entende que mulheres representam “sexo” e o que é “sexy”, perguntando “Querer ser sexy é algo exclusivo para mulheres?” (p. 55).
      Mas essa compreensão, de que o interesse masculino pelos enfeites da posição subordinada da mulher é sexual, é controversa. Muitos transsexuais homem-para-mulher e seus profissionais médicos rejeitam isso porque consideram desrespeitoso a sua experiência. A medicina tem encorajado transsexuais a desenvolver complicadas histórias sobre como eles sempre souberam que eram mulheres presas em corpos masculinos. As histórias orais requeridas são modeladas pelas histórias dadas por homossexuais homens para sexólogos no final do século XIX e no início do XX (Weeks, 1977). Os “invertidos” entrevistados por Havelock Ellis, por exemplo, eram identificados como pessoas que, por algum processo misterioso, tinham cérebros de mulher aprisionados em corpos de homem (Ellis, 1913). Naquele tempo a homossexualidade era entendida como biologicamente determinada por uma falha no desenvolvimento sexual. Homossexuais homens eram vistos como essencialmente femininos e lésbicas como essencialmente masculinas. Cirurgia transsexual não estava disponível. Quando tal cirurgia se tornou disponível nos anos 1950, histórias de ter uma alma de mulher em um corpo de homem foram interpretadas como critério para diagnosticar uma nova categoria de pessoa construída pela ciência médica, o transsexual.
      Aspirantes a cirurgia transsexual no presente têm de contar a história correta, como de ter sentido que eram “realmente” mulheres desde que eram crianças pequenas, para que se determine que merecem a cirurgia: para ser vistos como os “reais” (Jeffreys, 1990). Entretanto alguns homens têm ficado impacientes com o controle da medicina. Eles querem cirurgia sob demanda e não ter que inventar histórias para merecer. Donald (Deidre) McCloskey diz que teve que “mentir” para os médicos, para se encaixar na história requerida para que obtivesse a cirurgia. Mas ele desdenha as tentativas da medicina de manter o controle. Sua atitude era “Oh, sim, doutor, qualquer coisa que sua lista diga” (McCloskey, 1999, p. 145). Ele cita em apoio a este conteúdo a declaração de Pat (agora Patrick) Califa de que a cirurgia deveria ser um “direito inalienável” e transsexuais não deveriam ter que recitar um catálogo de sintomas (2002, p. 144).
      Nem os médicos que acreditam que existem transsexuais “reais”, nem os transsexuais que querem a cirurgia têm procurado ver o transsexualismo como uma simples forma de desvio sexual derivado do desejo por excitação sexual masoquista. Em alguns países a cirurgia transsexual está disponível em planos de saúde do Estado ou privados sob os argumentos de que isso é um tratamento necessário para a doença de ter uma mente de sexo diferente do corpo no qual reside. Se o transsexualismo é entendido como uma forma de fantasia sexual então os planos de saúde não pagariam. Como resultado muitos transsexuais e seus grupos ativistas rejeitam a noção de que o transsexualismo é sobre qualquer outra coisa que não homens “realmente” sendo mulheres.
      A pesquisa de Blanchard dividiu a rede transsexual internacional. Um influente homem-para-mulher, Anne Lawrence, psicoterapeuta, acredita que o conceito de Blanchard de autoginofilia caracteriza sua experiência muito bem, e também a de centenas de outros MTFs, muitos dos quais têm sua história em seu site (Lawrence, acessado em 2002) Lawrence enxerga a si mesmo como um dos membros do grupo heterossexual “que são atraídos por mulheres, que tiveram bastante sucesso como homens, e que não parecem notavelmente femininos”. Que força, ele pergunta, poderia ser poderosa o suficiente para fazer com que tais homens “desistissem de seu lugar no mundo”; ou seja, dominante status masculino. Isto é, ele concorda com Blanchard, “desejo sexual - nosso desejo sexual de feminilizar nossos corpos”. Outros MTFs tem sido menos intensos sobre autoginofilia. “Dr. Becky” diz que o conceito pode ser usado para apoiar a ideia de que transsexuais são apenas envolvidos em uma escolha de estilo de vida e isso poderia “negar nossa validade” e criar “mais dúvida e culpa”. Se o conceito de autoginofilia fosse aceito poderia ser mais difícil obter cirurgia já que  transsexuais poderiam der vistos com “mais ceticismo”. Poderia haver menos chance de proteção legislativa dos direitos dos transgêneros e poderia ser mais difícil fazer com que planos de saúde cobrissem o processo de transição (Dr. Becky, 1998).
      Muitos transsexuais, como Dr. Becky, frisam que sua decisão de ser cirurgicamente mutilados não foi resultado de um desejo sexual mas de uma condição biológica. Lawrence responde a esse ponto dizendo que certamente a vasta maioria dos transsexuais heterossexuais começam com poderosa excitação sexual com relação a ser uma mulher, mas quando chegam ao ponto da cirurgia, isso pode ter se aquietado virando algo que apenas parece natural e não é mais tão urgentemente excitante. Donald McCloskey apoia essa noção ao afirmar que no momento em que decidiu que não seria apenas um crossdresser heterossexual mas queria “transicionar,” “A parte sexual começou a sumir, algo novo em seu crossdressing, que ele não notou” (McCloskey, 1999, p. 20). Lawrence também aponta que grandes porcentagens, até um terço, dos homens classificados por Blanchard como andrófilos (que se relacionam com homens sexualmente antes e depois da cirurgia) também têm histórias de achar os trajes femininos e a ideia de ter um corpo de mulher sexualmente excitante. A criação de limites rigorosos entre transsexuais “heterossexuais” e “andrófilos” pode ser uma batalha perdida em si mesma. As autobiografias de crossdressers e seus websites certamente sugerem que muitos são interessados em homens tanto quanto mulheres, ou interessados em homens enquanto vestem roupas femininas, em qualquer taxa.
      O entusiasmo pela feminilidade na cultura gay masculina requer maiores explicações. A busca por excitação sexual masoquista ao praticar os comportamentos da classe subordinada de mulheres é provavelmente uma força condutora, mas a homossexualidade masculina tem sido associada com feminilidade na sexologia ao longo da história de tal ciência. Homens homossexuais nos séculos XIX e XX provavelmente se consideravam de alguma maneira “femininos” por sua deslealdade à masculinidade heterossexual. Isso foi interrompido nos anos 1960 pelo butch shift, inspirado pelo sucesso da liberação gay, que permitiu que homens gays escapassem do estereótipo a afeminação e aspirassem a entrar na categoria de homens “reais” através do emprego do comportamento e estilos masculinos (Jeffreys, 2003). Esse butch shift é mais evidente no desenvolvimento da prática do sadomasoquismo gay, descrito por críticos e praticantes (Levine, 1998; Preston, 1993) como um “teatro de iniciação” no qual homens gays eram admitidos na masculinidade. Como a afeminação não era mais um requisito para homens amarem homens, a busca pela afeminação no travestismo e no transsexualismo precisa ser explicada. O dano causado pelo abuso sexual de crianças e pela prostituição é uma explicação. Isso pode fazer com que alguns garotos procurem sair dos corpos nos quais foram abusados ou possivelmente cair de volta na categoria padrão de feminilidade uma vez que seu caminho para o poder masculino foi bloqueado por ter sido subordinados por agressores homens (Webb, 1996). Outra explicação é que o bullying e o assédio aos quais alguns jovens homens, suspeitos de ser insuficientemente masculinos são submetidos na escola e na infância danifica suas chances de entrar no status político superior de masculinidade e pode fazer com que recorram ao suposto oposto (Plummer, 1999). Na cultura gay, bem como na cultura heterossexual, a ideia de que existe uma alternativa ao gênero dominante ou ao gênero subordinado ainda não é bem compreendida.
      As indústrias que cresceram para servir travestis/transsexuais, quer se identifiquem como heterossexuais ou gays – tais como de roupas e sapatos especialmente desenhados, transformações, treinamento em movimento e voz, todas criadas para treinar e vestir homens na feminilidade tradicional – sugerem que a “feminilidade” que procuram é uma construção social. Não existem industrias similares para mulheres que procuram a masculinidade. O fenômeno do transsexualismo mulher-para-homem, que tem crescido consideravelmente nos anos 1990 graças a internet, não parece ser sobre fantasia sexual mas tem diferentes causas. Tais mulheres são em grande maioria lésbicas antes de buscar pela cirurgia. O fenômeno de mulheres transicionando e querendo permanecer com seus maridos que então têm de se reclassificar como homossexuais, não parece existir. As causas da transição de mulher para homem não parecem estar na excitação envolvida em vestir roupas “de homem.” Como expliquei em outro lugar, as causas estão na opressão de mulheres e lésbicas (Jeffreys, 2003). A primeira causa parece ser a inabilidade de ser feliz amando outra mulher tendo um corpo de mulher, como resultado de um ódio internalizado absorvido de uma cultura de ódio a mulheres e lésbicas. Outra causa está em histórias de abuso sexual e físico por homens que fazem com que mulheres queiram sair de seus corpos, que associam com a vitimização, e ganhar segurança ao se identificarem com o abusador. Algumas mulheres que transicionam querem ter acesso aos privilégios com os quais os homens nascem em virtude de seu status de dominação masculina. Algumas procuram a transição ao chegar na menopausa, o que pode ser um evento traumático para lésbicas que estão tão desesperadas para evitar se tornar mulheres mais velhas socialmente desprezadas que escolhem se tornar “homens” alterados cirurgicamente (Devor, 1999). A indústria da transformação não visa essas mulheres.

A INDÚSTRIA DA TRANSFORMAÇÃO E SEUS CLIENTES

      Os centros comerciais que existem especificamente para servir homens não fazem rodeios para afirmar que irão satisfazer as fantasias de seus clientes. Eles não se enxergam servindo uma condição biologicamente determinada mas sim fantasias sexuais masculinas assim como bordéis e clubes de strip fazem, e estes são frequentemente gerenciados por mulheres ex prostitutas que procuram sair da prostituição mas ainda usam suas habilidades para atender as demandas sexuais masculinas. Alguns são gerenciados por esposas de homens que fazem a transição, que foram treinadas para entender e apoiar os interesses sexuais de seus maridos e de outros homens de mentes similares. Outros são gerenciados por travestis.
      A indústria da transformação é um mercado crescido. A internet oferece centenas de estúdios de transformação para aspirantes a travestis/transsexuais escolherem. Um deles é o “Hidden Woman” (Mulher Escondida) em Reno (Hidden Woman, 2002). Essa loja de transformação e salão de beleza como muitos outros especialistas da vida real e lojas online, vende toda a parafernália que homens precisam para se transformar:  lingerie, perucas, enchimentos para colocar em sutiãs e adesivos para mantê-los no lugar, equipamentos para esconder os pênis e calçados de fetiche. A mulher fantasiosa que homens travestidos têm em mente, de acordo com as fotos nesses sites e com o que está disponível na loja, incorpora a exagerada, extrema feminilidade da pornografia. Os sapatos de salto alto tornam andar praticamente impossível. Extremamente pontudos e ridiculamente altos, eles parecem com, e sem dúvida são criados para ser, instrumentos de tortura. Os saltos stiletto têm mais de 15 centímetros. Os lucros a ser conquistados na indústria da transformação são indicados pela etiqueta de preço que indica $1.725, anexada a sessão diária oferecida por Veronica Vera em seu estúdio (Miss Vera, 2002). Veronica Vera tem sido uma ativista e porta-voz de prostitutas.
      O site ABGender.com se descreve como “O Mais Popular Diretório de Rede e Loja Transgênero da América” (ABGender, 2002). Ele possui uma grande quantidade de estabelecimentos de transformação com títulos como “Escola de Finalização da Miss Erica” e “FemmeFever”. “La Maison de L’Espirit Feminine” (A Casa do Espírito Feminino) anuncia no site que cria “uma atmosfera onde você pode explorar os maravilhosos prazeres normalmente disponíveis somente para (...) o gênero feminino.” Mas esses “maravilhosos prazeres” estão provavelmente apenas disponíveis para homens que decidem incorporar o “gênero feminino”. A prazerosa satisfação sexual masoquista advinda dos equipamentos da feminilidade não é a usual experiência de mulheres que irão frequentemente achar que as práticas de beleza são rotineiras e entediantes. La Maison diz que vai transformar “fantasia em realidade” e assim permitir a satisfação sexual de homens de “se vestir” em um ambiente seguro. “A Woman’s Touch” (Um toque feminino) vai treinar homens para “andar e se movimentar com o equilíbrio da mulher que você se tornou verdadeiramente”. Na “Transformações Incríveis” eles vão criar “O Look da Secretária Sexy” que muitos de seus clientes tem “muito prazer com”. “Transformação no Reino Unido” vende: 
      “Seios realistas, seios de silicone, silhueta de ampulheta, lingerie sexy, vaginas realistas, perucas, calçados femininos, roupas coladas e de sadomasoquismo, meias, baby dolls, cobertura de barba, transformações, joias, unhas pintadas, cílios postiços, luvas, vídeos de transformação, vídeos de sadomasoquismo TV/TS (travesti/transsexual), diversão sadomasoquista, hormônios femininos, desenvolvimento de seios, tratamentos hormonais combinados, terapia de discurso feminino para estudar em casa.”
      O suprimento de hormônios sugere que não existe uma demarcação rígida entre crossdressers e transsexuais como uma vez existiu. Homens podem adquirir partes do corpo femininas bem como acessórios e roupas. Embora seja crucialmente necessário para muitos travestis/transsexuais ver a si mesmos como muito distintos de drag queens, que se identificam como homossexuais, a distinção não é sempre clara. A lista de estabelecimentos de transformação inclui um Software de Transformação Drag Queen que faz com que homens sejam “Drag Queens por um dia”.
      Outro aspecto da indústria que se desenvolveu para servir crossdressers é a depilação a laser. A “Rocky Mountain Laser Clinic” oferece “Remoção de Pelos Permanente Para Transgêneros” com fotos de antes e depois (Rocky Mountain Laser Clinic, 2002). Os fornecedores da indústria transgênero também oferecem “Cobertura da Sombra da Barba”, “Cartão de Identificação Pessoal Transgênero” e perucas grandes (Tgnow, 2002). “Frederick’s of Hollywood”, a famosa companhia de roupas íntimas de renda sob encomenda, anuncia no site Tgnow como “Crossdresser Friendly” e diz, “Uma porcentagem muito grande dos clientes da Frederick’s é de Crossdressers!” (Tgnow, 2002). Fredericks oferece calcinhas com abertura na virilha para homens, “babydolls transparentes”, saltos altos e perucas e muito mais. É claro que se o desejo feminino de escapar da vestimenta degradante da feminilidade fosse uma ameaça aos lucros de tais fornecedores de feminilidade fetichista como Fredericks, a demanda de homens facilmente compensaria. 
      As oportunidades de lucro desse interesse sexual de homens são cada vez mais variadas. Um trabalho paralelo lucrativo para um cirurgião cosmético é operar nos rostos de transsexuais para torná-los mais femininos. Douglas Ousterhout de San Francisco diz a seus clientes em potencial que “Parecer feminino é, sem dúvidas, extremamente importante para você. Primeiras impressões são frequentemente baseadas apenas no seu rosto” (Ousterhout, 1995). Ele não apenas faz os tradicionais lift na testa e remoção de gordura, mas também muda os contornos faciais modificando a estrutura óssea, e vai operar nos ossos da testa, queixo, nariz, bochechas e mandíbula, e no pomo de Adão. Ele também realiza implantes capilares e de seios.
      As fantasias femininas que a travestis/transsexuais da internet tendem a experienciar retornam aos anos 1950 ou a indústria do sexo. Crossdressers frequentemente vestem deliberadamente roupas que associam com prostitutas. Essas são as roupas mais sexistas que se pode imaginar. Charles Anders nos diz que “Garotas recém criadas gravitam ao redor do look sexy por todo tipo de motivos (...). Ou talvez associem vestir-se com uma excitação sexual, então querem vestir roupas que gritem ‘menina safada’” (Anders, 2002, p. 85). As fantasias femininas incorporam ideias extremamente tradicionais e muitas vezes ofensivas do que ser uma mulher pode ser. Vicky Valentine, por exemplo, no site “Transgender Galaxy” é a Miss Setembro de 2002. Seu anúncio pessoal é o seguinte: “Sou uma simpática, divertida garota de 30 e poucos anos vivendo e saindo em Londres. Eu gosto de me vestir o mais feminina que posso e amo saltos altos e meias, vestidos clássicos, e parecer uma vadia às vezes também!” (tggalaxy.com, 2002). O site Transgender Galaxy é fortemente relacionado a indústria do sexo e oferece diversos links onde seus clientes homens podem acessar homens e meninos em pornografia e prostituição. O site parece ser especializado em estereótipos sexuais de raça oferecendo “Transsexuais brasileiros” ou “www.black-tgirls” ou “ladyboy”, que possui “she-males da Ásia” e é ilustrado com o bumbum magro e nu de um jovem asiático que olha sobre o ombro para o espectador. A imagem de feminilidade que alguns travestis adotam é colhida da pornografia. Dessa forma o website “Transformação Travesti” oferece “Volta Às Aulas”, no qual o travesti se veste com um uniforme escolar de menina. O homem senta em um banco com as pernas abertas mostrando a calcinha em um frame e em outro se inclina para que a calcinha apareça claramente (Transformation, 2002). A imagem representa a fantasia heterossexual pornográfica comum de usar sexualmente uma jovem garota mas transposta nesse caso para um corpo masculino.
      O website “Transsexual Magic” oferece uma definição da pessoa transsexual a qual muitas mulheres rejeitariam como uma definição de feminilidade: “Ela deixa o cabelo crescer e veste roupas sexy e lindas, depila as pernas e tira as sobrancelhas. No dia a dia, ela usa maquiagem e fala com voz feminina” (Transsexual Magic, 2002). Esse website parece ser direcionado a homens que parecem indubitavelmente homens mesmo quando vestidos como mulheres. Aconselha tais homens a desenvolver auras femininas que fazem com que sejam percebidos como mulheres apesar de sua aparência. Eles podem adquirir as auras com afirmações e rituais com velas, “Comece a afirmar que ‘Eu sou perfeita. Eu sou uma mulher. Eu sou linda.’ E as pessoas vão começar a te ver na mesma luz.” Diz, “A maioria dos homens adultos não podem ‘se passar’ por mulheres. Mesmo se a maioria de nós pudermos pagar a cirurgia de ressignificação de sexo e sobreviver, nós não iríamos arrebatar o mundo com beleza radiante.” A autoginofilia desse travesti é clara em sua admiração de si mesmo no espelho. Ele obtém uma boa satisfação ao olhar seu “magnífico par de pernas” e destaca “Embelezado com um par de saltos altos sexy, você vai glorificar o Divino criador de tudo o que é lindo.” Para ter pernas “modeladas e femininas” ele as depila deixando-as “suaves e limpas”. Em alguns websites homens trocam suas dicas de beleza com prazer, já que para eles essas práticas geram excitação sexual. No website “Fórum Transgênero” um homem escreve, “Eu reaplico o batom constantemente durante o dia”, e “Demoro mais ou menos 10 minutos para aplicar toda a minha maquiagem” e “Eu também descobri que aplicar maquiagem líquida em minhas pernas e braços quando uso vestido ajuda a esconder imperfeições” (Transgender Forum, 2002). Ele diz “Eu uso esmalte vermelho nas unhas dos pés porque acho muito sexy.”
      A maioria dos travestis/transsexuais que acessam esses websites são heterossexuais e procuram permanecer com suas esposas e se denominarem lésbicas. As esposas nem sempre ficam felizes quando seus maridos embarcam na feminilidade como fantasia sexual e os websites falam disso. Um novo termo para travestis que procuram permanecer com suas esposas é t-girls (meninas-t). No site de Renee Reyes ele fornece um “guia de sobrevivência para meninas-t” – isto é, como manter esposas e fazer com que aceitem a prática do crossdressing (Reyes, 2002). Ele diz que “as meninas-t mais felizes e equilibradas que conheci ao longo dos anos eram casadas com mulheres geneticamente” em casamentos “tradicionais”. Ele oferece uma lista dos benefícios para mulheres de ter um “homem transgênero” como parceiro para ganhar a complacência das esposas. Um dos “benefícios mais convincentes” é que as meninas-t “apreciam a beleza interior da feminilidade – muitas vezes ainda melhor do que suas parceiras mulheres”. Existe um fundo de verdade nisso. Muitas mulheres não veem beleza interior nas extremas práticas da feminilidade na qual esses homens se envolvem. Elas podem ver os saltos muito altos, as saias curtas e a maquiagem como degradantes e uma perda de tempo. Travestis/transsexuais estão envolvidos com a ideia antiquada, desconfortável e degradante ideia de feminilidade que muitas mulheres rejeitam no presente. Eles representam um arquivo de práticas obscuras e estão propensos, infelizmente, a sustentar uma feminilidade fossilizada no futuro porque é o que os excita.
      A ideia de Reyes sobre feminilidade é que ela significa uma obsessão trivial com compras e novos vestidos, uma visão dos anos 50. Dessa forma, “pequenos bônus” são maridos travestis/transsexuais que irão passar o tempo fazendo compras com suas esposas e “a esposa ganha um novo vestido – cada vez que ‘ela’ compra um”. Esposas são aconselhadas a “se envolverem” na “brincadeira” com maridos travestis/transsexuais na qual o casal viaja entre estados para um lugar onde travestis se encontram para se vestirem com privacidade. Alternativamente a esposa pode mandar o marido para fazer crossdressing enquanto fica em casa. Esposas devem se entregar ao crossdressing dos maridos, como é dito a elas, porque esses homens não escolhem seu comportamento e não podem se controlar, então quer a esposa goste quer não “a natureza seguirá seu curso”. Mulheres devem se envolver ou seus maridos farão “algo estúpido que vai resultar em vergonha para a unidade familiar” ou “voltar para casa com uma doença venérea fatal” ou “desenvolver um novo relacionamento amoroso com alguém que aceite o transgenerismo”. Todas essas ameaças são feitas para ganhar a cooperação forçada de esposas. É dito as esposas que seus maridos seguirão em frente de qualquer forma e irão envergonhar, infectar ou deixá-las se não forem coniventes.
      A internet criou uma nova classe de transsexuais. Eles creditam a rede por inspirar seu desejo pela transição. Donald (Deirdre) McCloskey é um conservador professor americano de economia. Ele se vê como um homem heterossexual crossdresser e tem “se vestido” desde os 11 anos. Ele era casado, com dois filhos (McCloskey, 1999). Quando tinha 53 anos ele encontrou os recursos disponíveis sobre travestis/transsexuais na internet e decidiu que era na verdade uma mulher: “Aqui era uma biblioteca especialmente criada para a excitação sexual de crossdressers, e excitado ele estava” (1999, p. 20). Ele explica dessa forma: “Parece haver dois padrões: ou você sempre soube que tinha o gênero errado ou você construiu uma barragem psicológica contra a compreensão, que de repente rompe, geralmente na idade adulta” (p. 79). Donald considera que tinha tal barragem. Ele não está preparado para ver a si mesmo como simplesmente fazendo uma escolha. Sua esposa não podia cooperar então ele disse a ela que ela era “uma falha como esposa” e não “sabia o que o amor significa”, enquanto era confortado por suas “unhas pintadas de vermelho” (p. 61). Ele já tinha atingido o auge das realizações como professor e sua decisão de se identificar como “mulher” não danificou sua carreira, ele foi simplesmente redefinido como mulher e estava apto a ganhar pontos de oportunidade extra em sua universidade pois havia poucas mulheres professoras em economia. Para homens como McCloskey, submeter-se a cirurgia transsexual é um privilégio de sua classe e status de gênero. Muitos homens que transicionam atingiram prosperidade e segurança através do privilégio masculino e queriam algo um pouco diferente.
      Os travestis/transsexuais heterossexuais podem ser pilares do poder. Um artigo de jornal sobre o studio de transformação “Escola de Meninas da Rebecca” nos diz que os clientes são majoritariamente do grupo de lobby Transgender Education Association (TGEA), que representa os interesses de crossdressers, drag queens e transsexuais antes e depois da operação (Vitzhum, 1999). Na festa de halloween do TGEA no Studio, um terço dos homens sentou ao lado de suas esposas e namoradas. Eles eram considerados como um “grupo conservador”. “Debbie”, por exemplo, é um coronel aposentado. Muitos desses homens conhecidos parecem ter interesse na feminilidade como um hobby na aposentadoria. Alguns dos homens estavam na força policial. O status desses homens na estrutura de poder e dominância masculina pode explicar o motivo pelo qual sua visão de feminilidade é tão conservadora. Também pode explicar o porquê de eles terem o poder e influência marcantes que o lobby transgênero conseguiu em países ocidentais. Eles têm influência para mudar leis e proteger seu hobby, e sistemas legais de muitos países agora incorporaram a proteção aos direitos dos transgêneros – isto é, de ser aceitos como mulheres e não discriminados. De fato um dos grupos de lobby transgêneros nos Estados Unidos, GenderPAC, que dá conferências sobre “gênero” todo ano, afirma como missão “GenderPAC acredita que o gênero deve ser protegido como um direito civil básico” (GenderPAC, n. d.). Isso é um grande problema para feministas que desejam eliminar o gênero ao invés de protegê-lo.

TRANSFEMINILIDADE COMO MASOQUISMO

      A internet tem facilitado muito a busca por esse hobby. Alguns homens, ao que parece, agora se tornaram transsexuais porque descobriram o quão excitante é fingir ser mulher em salas de bate-papo de sexo. Dessa forma, Peter diz que “Como muitos transsexuais atualmente”, teve uma “experiência de conversão no cyperespaço”. Ele começou a fazer sexo virtual como Trina ou Gina, e descobriu que “a proporção homem-mulher era favorável, e ser procurada por homens era tão emocionante como Peter tinha sonhado. Em 1996, ele começou a usar a internet para pesquisar hormônios e cirurgia de ressignificação de sexo” (Vitzhum, 1999). Peter se diz “lésbica”. Ele é bem aberto sobre o fato de que ser uma mulher significa masoquismo para ele, e diz:
      Nós nem falamos sobre masoquismo. Eu acho, sexualmente, que existe um desejo de ser punido, e parte daquilo é a ilusão do que as mulheres são. Que elas estão lá pare ser objetos sexuais e para ser objetos de punição. Isso tudo meio que caminha junto... Existe um aspecto de degradação nisso, em abrir mão do controle. Parte de toda a experiência transsexual é viver aquela fantasia de abrir as pernas e ser fodida.
(Vitzhum, 1999)
      O autor crossdresser Charles Anders observa:

      Pode ser politicamente incorreto, mas estou supondo que muitos caras associam usar enchimentos e meia calça com um papel passivo, receptivo no sexo(...) Para alguns caras, se tornar feminino pode ser parte de uma fantasia de submissão, na qual outra pessoa os amarra e espanca, ou os veste como uma empregada francesa chamada Fifi e os faz servir cannolis de joelhos.
(Anders, 2002, p. 10)
      A pornografia transgênera sugere fortemente que a excitação de travestis/transsexuais é o masoquismo. O site Transgender.Magazines.co.uk vende 17 revistas, das quais 11 contêm temas masoquistas claros, a julgar pelas descrições. Os títulos incluem “Feminização Forçada”, “Travesti Empregada Servente”, “Loja de Sexo Forçado”, “Travesti Humilhada”, “Travesti Escrava Sexual”, “Travestis Escravizadas” (Revistas Transgêneras, 2002). Um tema constante na pornografia transgênera é de homens tendo maquiagem e roupas femininas colocados neles a força. Os editores de Best Transgender Erotica (Blank e Kaldera, 2002) dizem que eles procuram especificamente por algo diferente para colocar em sua publicação que não é apenas sobre homens sendo forçados a colocar roupas “femininas” e maquiagem por outros: “Em nossa chamada por inscrições, nós desencorajamos ativamente escritores de inscrever quaisquer exemplares de histórias tradicionais de feminização forçada (...) Mãe feminiza filho a força, Tia feminiza sobrinho a força... e por aí vai” (p. 10).
      O masoquismo que está na raiz do crossdressing é claro nos vários sites de fetiche com batom também, porque na cosmologia do fetichismo dos homens, o batom é associado ao sadomasoquismo. Batom é uma importante parte do arsenal das dominatrixes da indústria do sexo que atendem esse aspecto da sexualidade masculina. Mas, mais importante ainda, uma parte crucial desse sadomasoquismo com batom é que os clientes homens são forçados a usar batom e isso simboliza sua humilhação e submissão. Um site chamado “Bomis: The Lipstick Fetish Ring” (Bomis: O Ringue do Fetiche com Batom) tem links que levam a sites tais como “O Lounge de Amantes dos Lábios e do Batom, Fórum de Fetiche de Buster, Batom dos Anjos/Site de Fetiche com Calcinhas, Boquetes de Batom, Sexo de Batom e Maquiagem, Granadas Pintadas, shots em Adolescentes (Imagens de meninas adolescentes de maquiagem)” e muitos outros (Bomis: The Lipstick Fetish Ring, 2004). A “Livraria Batom e Couro” (associada a Amazon.com) reproduz o som de um chicote estalando quando se entra no site e toda vez que escolhe um item (Lipstick and Leather Books, 2002). Esse site fornece fotos de um grande número de dominatrixes, que usam uma boa quantidade de batom e o aplicam. Cada “amante” tem um website a ser visitado e listas de material sadomasoquista para leitura que se conecta a Amazon. Em uma página está a instrução “para outro beijo do chicote por favor clique nos lábios com batom”. Os clientes homens claramente exigem riqueza de detalhes sobre batom já que cada amante identifica seu batom favorito e mostra nos lábios.
      No mesmo site está uma página chamada “Amores de Batom da Deusa Tika” (Goddess Tika Lipsticked Luvs, 2002). Tika é uma dominatrix. O site contém histórias criadas para estimular a ejaculação nos clientes homens e dá uma boa indicação do que os clientes submissos buscam em uma amante quando visitam bordéis. As histórias têm basicamente dois ingredientes. A dominatrix faz o homem submisso babar enquanto ela aplica o batom, ou ele é forçado por uma mulher a passar batom em si mesmo, ou a se submeter a ter batom passado em sua boca. Esse é o momento de máxima humilhação e, presumivelmente, ejaculação. Em um conto chamado “O ‘poder do lábio’ de uma Deusa!”, a dominatrix escreve, “Eu sou uma ‘Deusa Cruel’, torturo meus escravos com meus lábios”, e “Eu às vezes passo meu batom na frente dos meus escravos enquanto eles assistem. Eu os ordeno a assistir meus lábios de Deusa e imaginar que são ‘Homens o suficiente’ para tocar tais lábios cheios e macios.” Em um conto chamado “O Golpe da Maquiagem” um homem submisso descreve seus sentimentos ao ser maquiado como mulher: “Você continua a delinear minha boca com força. Eu sabia que agora estava em um vermelho vivo. Meu pau começou a pulsar (...) Ondas de emoção subiram e desceram pelo meu pescoço e cabeça (...) indo e voltando entre admiração e terror” (Goddess Tika’s Lipsticked Luvs, 2002). Ele então é ameaçado com a aplicação de blush e rímel e diz “Eu estava tão humilhado por querer tanto tudo isso que poderia sofrer até o ponto de respirar com dificuldade”, e então ele tem mais ondas de emoção. Ele termina “usando mais maquiagem do que a vendedora”! Em outro conto na seção “4 contos de submissão” um narrador homem escreve que a amante “começa a provocar meus lábios com sua caixa de batom (...) Eu quase não consigo me controlar”. Essa página contém um teste de personalidade do batom no qual homens podem olhar oito diagramas do formato no qual os batons ficam danificados depois que eles usam, e descobrir qual personalidade se encaixa em seu perfil. É difícil imaginar mulheres que usam batom porque é obrigatório em seu ambiente de trabalho, ou pelo hábito enraizado desde a infância, tão encantadas com detalhes, mas os fetichistas do batom não são mulheres. O papel da mulher é dar prazer ao fetichista homem ao usar o fetiche ou aplicá-lo em clientes homens em bordéis. O fato de que o uso de batom é deliciosamente “humilhante” para homens torna claro que o batom representa, para eles, o status inferior de mulheres. O batom não eleva o status da mulher, ao menos que estejam na indústria do sexo como dominantes, mas simboliza a subordinação.
      Para homens conservadores que querem obter as excitações sexuais do masoquismo pode parecer impossível permanecer “homens” porque eles associam a masculinidade com a dominância. Mas mulheres e lésbicas não baseiam sua autodefinição no masoquismo sexual. Isso não é o centro da compreensão de nós mesmas como é para autoginófilos como Peter do TGEA. Há uma arrogância na pressuposição da parte de tais homens que seu interesse sexual na subordinação os torna mulheres, e concomitantemente fazer campanha para reformar a legislação de discriminação sexual para que seu entendimento peculiar de si mesmos como mulheres seja protegido pela lei como feminilidade.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

[CAPÍTULO 1] Against our will - Susan Brownmiller (1975)

Este texto faz parte do livro Against our Will: Men, Women and Rape, de Susan Brownmiller, publicado pela primeira vez em 1975.
Tradução livre: Laryssa Azevedo

A psicologia de massas do estupro: uma introdução

      Krafft-Ebing, pioneiro nos estudos de distúrbios sexuais, teve pouco a dizer sobre estupro. Seu famoso Psychopathia Sexualis dá pouca atenção ao ato e a seus praticantes. Ele acreditava, como informou a seus leitores, que a maioria dos estupradores eram homens degenerados e imbecis. Com essa generalização, Krafft-Ebing lavou as mãos sobre toda a questão e virou-se com prazer aos frotteurs e fetichistas que agradavam.
      Sigmund Freud, cujos maiores trabalhos seguiram os de Krafft-Ebing por vinte a quarenta anos, também se calou sobre o assunto do estupro. Podemos pesquisar seus escritos em vão por uma citação citável, uma análise, uma percepção. O pai da psicanálise, que inventou o conceito da primazia do pênis, nunca foi motivado, até onde sabemos, a explorar a consequência real do pênis como uma arma. O que o mestre ignorou, os discípulos tenderam a ignorar também. Alfred Adler não menciona estupro, apesar de sua total consciência da histórica disputa de poder entre homens e mulheres. Jung refere-se ao estupro apenas de forma obscura, uma referência de relance em alguma de suas interpretações mitológicas. Helene Deutsch e Karen Horney, cada uma de uma perspectiva diferente, atingiram o medo feminino do estupro, e a fantasia feminina, mas como mulheres que não se atreveram a ousar, não direcionaram o olhar a realidade de homem e mulher.
      E os grandes teóricos socialistas Marx e Engels e seus muitos colegas e discípulos que desenvolveram a teoria da opressão de classe e colocaram palavras como “exploração” no vocabulário cotidiano, esses, também, permaneceram estranhamente em silêncio sobre estupro, incapazes de encaixá-lo em seus constructos econômicos. Entre eles apenas August Bebel tentou alcançar sua importância histórica, seu papel na própria formulação da classe, propriedade privada e meios de produção. Em Woman Under Socialism Bebel usou sua imaginação para especular brevemente sobre as brigas pré-históricas por terra, gado e força de trabalho em uma análise marxista aceitável: “Surgiu a necessidade da força de trabalho para cultivar a terra. Quanto mais numerosa essa força, maior a abundância em produtos e gado. Esses esforços levaram primeiro ao estupro de mulheres, em seguida a escravidão de homens conquistados. As mulheres viraram parideiras e objetos de prazer do conquistador; seus homens viraram escravos.” Ele não fez uma boa abordagem, tornando estupro de mulheres algo secundário a procura do homem por trabalho, mas isso foi uma pequena revelação que Engels não atingiu em seu Origin of the Family. Todavia Bebel estava mais tranquilo pesquisando as remunerações e condições de trabalho das mulheres em fábricas alemãs, e foi nisso que dedicou suas energias.
      Foi o desequilibrado gênio Wilhelm Reich, consumido em raiva igualmente por Hitler,  Marx e Freud, que brevemente cogitou a visão de uma “ideologia masculina do estupro.” A frase está no capítulo de abertura de The Sexual Revolution, implorando por mais interpretações. Mas isso não veio. A angustiada mente estava em um estágio muito avançado de desordem. Uma análise política do estupro poderia requerer mais traição a seu próprio imutável gênero do que Wilhelm Reich poderia ter.
      E assim permaneceu para as feministas modernas, livres pelo menos dos escritos que nos proibiam de olhar para a sexualidade masculina, para descobrir a verdade e o significado de nossa própria vitimização. Crítico a nosso estudo é o reconhecimento de que o estupro tem uma história, e por meio das ferramentas da análise histórica podemos aprender o que precisamos saber sobre nossa atual condição.
      Nenhum zoólogo, até onde eu sei, observou que animais estupram em seu habitat natural, a selva. Sexo no mundo animal, incluindo nas espécies com as quais temos relações próximas, os primatas, é mais corretamente chamado “acasalamento,” e sua atividade cíclica é determinada por sinais biológicos que a fêmea emite. O acasalamento é iniciado e “controlado,” parece, pelo ciclo reprodutivo da fêmea. Quando a fêmea da espécie periodicamente entra no cio, emitindo óbvios sinais físicos, ela está pronta e disposta para a cópula e o macho fica interessado. Em outros tempos simplesmente não há interesse, e não há acasalamento.
      Jane Goodall, estudando seus chimpanzés selvagens na reserva de Gombe Stream, notou que os chimpanzés, machos e fêmeas, eram “muito promíscuos, mas isso não significa que cada fêmea vai aceitar cada macho que a cortejar.” Ela gravou suas observações de uma fêmea no cio, que mostrava o inchaço rosado em sua área genital, que todavia demonstrava aversão a um macho em particular que a procurava. “Apesar de ele tê-la balançado para fora da árvore onde ela se refugiava, nós nunca o vimos de fato ‘estuprá-la’,” Goodall escreveu, adicionando, entretanto, “Porém, muito frequentemente ele conseguia se aproximar através de obstinada persistência.” Outro estudioso do comportamento animal, Leonard Williams, afirmou categoricamente “O macaco macho não pode de fato acasalar com a fêmea sem seu convite e disposição para cooperar. Na sociedade dos macacos não existe estupro, prostituição, ou mesmo consentimento passivo.”
      Zoólogos em sua maioria foram reticentes sobre estupro. Isso não tem sido, para eles, uma questão científica importante. Mas nós sabemos que seres humanos são diferentes. Cópula em nossa espécie pode ocorrer 365 dias por ano; não é controlada pelo ciclo de reprodução feminino. Nós fêmeas humanas não “ficamos cor de rosa.” A chamada da reprodução e os sinais, tanto visuais quanto olfativos, são ausentes em nossos procedimentos de acasalamento, perdidos talvez na aleatoriedade evolucionária. Em seu lugar, como marca de nossa civilização, nós temos evoluído um complexo sistema de sinais e desejos psicológicos, e uma complexa estrutura de prazer. Nosso chamado para o sexo ocorre na cabeça, e o ato não está necessariamente ligado, como em outros animais, ao padrão de procriação da mãe natureza. Sem uma temporada de acasalamento biologicamente determinada, um macho humano pode demonstrar interesse sexual em uma fêmea humana quantas vezes quiser, e seus desejos psicológicos não dependem de forma alguma de sua prontidão biológica ou receptividade. Consequentemente, o macho humano pode estuprar.
      A capacidade estrutural do homem de estuprar e a correspondente vulnerabilidade estrutural da mulher é a base da fisiologia de ambos os sexos como o original ato sexual em si. Não fosse esse acidente biológico, uma acomodação que requer o encaixe de duas partes separadas, pênis em vagina, não haveria cópula e nem estupro como conhecemos. Anatomicamente alguém pode querer melhorar o design da natureza, mas tal especulação não me parece realista. O sexo humano alcança seu propósito histórico de geração da espécie e também dispõe alguma intimidade e prazer. Não tenho nenhum conflito com o procedimento. Mas nós não podemos argumentar com o fato de que em termos de anatomia humana a possibilidade de intercurso forçado incontestavelmente existe. Esse único fator pode ser sido suficiente para ter causado a criação da ideologia masculina do estupro. Quando homens descobriram que poderiam estuprar, eles o fizeram. Muito depois, sob certas circunstâncias, eles até vieram a considerar estupro um crime.
      No cenário violento habitado por mulheres e homens primitivos, alguma mulher em algum lugar previu seu direito a própria integridade física, e consigo imaginar sua luta para preservá-lo. Após o chocante reconhecimento de que essa particular encarnação de hominídeo cabeludo de duas pernas não era o Homo sapiens com o qual ela gostaria de livremente unir as partes, deve ter sido ela, e não algum homem, que pegou a primeira pedra e arremessou. Como ele deve ter ficado surpreso, que inesperada batalha deve ter se iniciado. Rápida e determinada, ela deve ter chutado, mordido, empurrado e corrido, mas ela não podia retaliar.
      A obscura percepção que entrou na consciência de mulheres pré-históricas deve ter tido uma igual porém oposta reação na mente do agressor masculino. Se o primeiro estupro foi uma inesperada batalha encontrada na recusa da primeira mulher, o segundo estupro foi indubitavelmente premeditado. De fato, uma das formas mais antigas de ligação masculina deve ter sido o estupro coletivo de uma mulher por um bando de homens. Feito isso, o estupro se tornou não apenas uma prerrogativa masculina, mas uma arma masculina básica de força contra a mulher, o principal agente do desejo dele e do medo dela. A entrada forçada dele no corpo dela, apesar dos protestos físicos e dos esforços, se tornou o veículo de sua conquista vitoriosa sobre ela, o grande teste de sua força superior, o triunfo de sua masculinidade.
      A descoberta do homem de que sua genitália poderia servir como uma arma para gerar medo deve estar entre uma das mais importantes descobertas dos tempos pré-históricos, juntamente com o uso do fogo e do primeiro machado rudimentar de pedra. Dos tempos pré-históricos até o presente, eu acredito, o estupro exerceu uma função crítica. Não é nada mais nada menos que um processo consciente de intimidação pelo qual todo homem mantém toda mulher em um estado de medo. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

[CAPÍTULO 2, PARTE 4] Beleza e Misoginia - Sheila Jeffreys (2005)

IMPERIALISMO CULTURAL OCIDENTAL – EXPORTANDO PRÁTICAS DANOSAS PARA O NÃO OCIDENTE

      Mulheres no Afeganistão supostamente recentemente libertas da regra do Talibã, estão presas na dualidade patriarcal de virgem/vadia por terem sido apresentadas a apenas duas escolhas de aparência, cobrir-se com a burca ou usar maquiagem. Práticas de beleza ocidentais são vistas como tão obviamente naturais, inevitáveis e boas para mulheres que têm sido mantidas como o melhor para mulheres do Afeganistão. Após anos de terrível opressão nos quais elas eram permitidas fora de casa apenas se usassem a burca que cobre o corpo inteiro, viajavam apenas na companhia de homens, eram privadas de educação e emprego e poderiam apanhar nas ruas por guardiões homens da integridade islâmica sem direito a reparação, poder envolver-se em práticas de beleza ocidentais, especialmente para rosto e cabelo, não parece uma necessidade urgente. Contudo é dessa forma que tais práticas estão sendo promovidas.
     A indústria de beleza americana avançou em 2002 em consequência da guerra para se infiltrar no Afeganistão sob o disfarce de um “auxílio” de beleza urgentemente necessitado. Isso foi representado na mídia ocidental como uma ajuda positiva ao invés de imperialismo cultural americano e empreendimento capitalista. Foi oferecido a mulheres o papel de cobrir-se com maquiagem e ser sexualmente objetificada, ao invés de cobrir-se com a burca para prevenir que fossem vistas como objetos sexuais por homens. A perspectiva do New York Times sobre isso é que apesar de duas décadas de guerra “Mulheres afegãs mantiveram seu desejo de parecer lindas, mas existe uma “lamentável escassez de esteticistas. Além disso, elas não têm ninguém para ensiná-las e nenhum lugar onde podem ter acesso a um pente decente, ainda mais à coleção de géis, cremes, pós, delineadores e cores que transbordam das prateleiras de qualquer drogaria americana” (Halbfinger, 2002,  p. 1). Em resposta a essa oportunidade de mercado, e à oportunidade de mostrar suas companhias lidando com um socorro emergencial, a maioral da indústria de beleza americana logo “correu ao resgate” liderada pela editora da Vogue. O resultado dessa generosidade foi que uma escola que ensinaria práticas de beleza estava para abrir em acordo com o Ministério Afegão de Assuntos Femininos, como se práticas de beleza fossem de fato uma questão crucial de direitos humanos para mulheres, junto com educação, segurança e trabalho.
     Os fabricantes de produtos de beleza americanos ofereceram manuais e mercadorias para auxiliar a empreitada. A editora da Vogue, Anna Wintour, disse que a indústria da beleza é “incrivelmente filantrópica” e que a escola de beleza “não apenas ajudaria mulheres do Afeganistão a ser e sentirem-se melhor mas também as empregaria”. Aparentemente a situação nos 20 salões de beleza que reabriram após a remoção do controle do Talibã constituem uma crise de saúde porque as condições eram insalubres e perigosas. Como uma emigrante afegã que viu a situação reportou:
      Elas estão usando tesouras enferrujadas, têm um pente barato para o salão inteiro e não o limpam, não há água corrente ou creme de barbear, e existe um problema real com piolhos. Elas usam varas de madeira e elásticos para fazer permanentes. E não há algodão,  de modo que a solução de permanente escorre pelo rosto da cliente.

(Halbfinger, 2002, p. 1)
      Permanente capilar poderia ser considerada uma prática cultural danosa por si só dado que a química envolvida é tóxica independente de escorrer pelo rosto (Erickson, 2002), mas nos interesses do capitalismo transformou-se em uma demanda de direitos humanos. Simplesmente traduzir manuais educacionais de beleza não era suficiente no Afeganistão porque muitas mulheres eram analfabetas, então um curso em vídeo de instruções de maquiagem estava sendo preparado.
      Apesar de as corporações de cosméticos lutarem entre si para fazer doações à escola de beleza em um almoço da Vogue foi dito que não estavam competindo por vendas, um executivo disse que “a escola de beleza não pode ser julgada um sucesso se não criar uma demanda por cosméticos americanos assim que possível” (Halbfinger, 2002, p. 1). Não foi apenas no Afeganistão que corporações de cosméticos dos Estados Unidos viram uma oportunidade de mercado. Eles rapidamente entraram na União Soviética após a queda do regime comunista para oferecer seus serviços para mulheres antes em privação, e estão alcançando a China também. Como a historiadora dos negócios Kathy Peiss coloca, até mesmo nas “Florestas tropicais da Amazônia, mulheres vendem Avon, Mary Kay e outros produtos de beleza” (Peiss, 2001, p. 20). Mas Peiss, como muitos dos envolvidos em vender ideais de beleza ocidentais no Afeganistão, esconde a opressão dessa atividade colonizadora ao enfatizar que ela fornece empregos para mulheres que precisam muito deles. Como ela diz, “como foi o caso há cem anos nos Estados Unidos, esses ‘micronegócios’ deram a algumas mulheres um apoio na economia de mercado em desenvolvimento” (Peiss, 2001, p. 20).

COBRINDO MULHERES NA RELIGIÃO PATRIARCAL

      Apesar de a objetificação sexual requerida das mulheres no ocidente poder ser distinta do ato de se cobrir exigido por regimes islâmicos, é instrutivo considerar a base cultural idêntica a partir da qual tanto a cultura ocidental quanto a islâmica se desenvolveram. Cobrir as cabeças de mulheres é uma prática cultural de tribos do oriente médio que encontraram caminhos, via religiões monoteístas originárias daquela região, para outras partes do mundo. Cobrir as cabeças e os corpos era imposto sobre algumas mulheres cristãs no ocidente até pouco tempo atrás. Em minha infância em Malta nos anos 1950, onde meu pai foi colocado pelo exército, eu lembro dos avisos em ônibus que instruíam mulheres a “usar vestido Marylike”. Ainda era obrigatório que mulheres que entrassem em igrejas em muitas partes da Europa cobrindo suas cabeças. A religião cristã, como o islã, e a outra religião patriarcal monoteísta, o judaísmo, tem suas raízes em culturas patriarcais antigas que existiam no oriente médio. Nessas culturas antigas, era exigido que mulheres respeitáveis se cobrissem como no código babilônico de Hamurabi. Gerda Lerner explica em The Creation of Patriarchy, que o código, que precede as três religiões, exigia que mulheres que não eram prostitutas se cobrissem para indicar que eram propriedade de homens individuais (Lerner, 1987). As mulheres prostituídas, geralmente escravas, não se cobriam para indicar que eram propriedade de homens em geral.
      No início da cristandade um código similar foi imposto. Dessa forma, na carta de Paulo aos Coríntios no Novo Testamento ele define a regra. Ele explica que “a cabeça de todo homem é Cristo; e a cabeça da mulher é o homem; e a cabeça de Cristo é Deus”. Isso pode ser demonstrado através de cobrir a cabeça desta forma:
      Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça. Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu. O varão pois não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do varão. Porque o varão não provém da mulher, mas a mulher do varão. Porque também o varão não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do varão. 

(Coríntios, 1957, 11: 3-15, p. 181)
      A cobertura da cabeça da mulher poderia mostrar que ela era propriedade do homem. Outras práticas danosas da cristandade antiga acompanharam o código de vestimenta. Mulheres não podiam falar na igreja, mas podiam perguntar a seus maridos sobre qualquer coisa que não entendessem quando chegassem em casa e eram obrigadas a “submeter-se a seus próprios maridos, como a Deus” (Efésios, 1957, 5: 22, p. 200).
      Um ramo da religião cristã hoje vai além de simplesmente cobrir mulheres. Mulheres estão de fato excluídas de todo o Monte Athos na Grécia, coberto por monastérios ortodoxos, para que os monges estejam protegidos de ter que vê-las. Em 2002 essa prática cristã antiga recebeu apoio influente pela visita, divulgada na mídia, do Príncipe Charles a um monastério na montanha (Smith, 2004). A montanha tem excluído mulheres desde o século XI e com o status de uma república teocrática independente pode impor penalidades legais a quem desafiar o banimento. Charles visitou o lugar diversas vezes desde  morte de sua ex esposa, Diana, e é dito que ganha ótimo consolo de seu refúgio, um lugar onde as leituras no refeitório “são frequentemente baseadas no (...) mal causado pelas mulheres com a queda de Eva” (Smith, 2004, p. 3). A contínua existência dessa zona de exclusão apesar de tentativas da União Europeia de revogar o banimento é um lembrete dos valores misóginos que estão na base do cristianismo patriarcal.

O QUE CONSTITUI UMA PRÁTICA CULTURAL DANOSA?

      Eu sugeri neste capítulo que tanto as culturas ocidentais influenciadas pelo cristianismo quanto as influenciadas pelo islã reforçam práticas culturais danosas sobre mulheres. Apenas uma determinação para ignorar as origens políticas, funções e consequências das práticas de beleza ocidentais permitiriam a crença de que a cultura ocidental é claramente superior nas liberdades dadas a mulheres em relação à aparência. Considerando que todas as três culturas religiosas patriarcais originadas no antigo oriente médio começaram forçando mulheres a se cobrir, isso mudou no ocidente para a aparentemente muito diferente prescrição para mulheres exercerem seu papel sexual em espaços públicos. Em algumas áreas do oriente médio e da Ásia onde cobrir-se foi uma regra desafiada ou está morrendo existe uma reforço renovado da regra. O resultado final é uma aparentemente divergência cada vez maior entre as regras de aparência para mulheres no oriente e no ocidente. Ambos os conjuntos de regras de aparência, entretanto, requerem que mulheres devam ser “diferentes/deferentes”, e ambos exigem que elas sirvam as necessidades sexuais dos homens, seja fornecendo excitação sexual ou escondendo os corpos femininos para que homens não fiquem excitados. Em ambos os casos, é exigido que mulheres satisfaçam as necessidades masculinas em espaços públicos e não tenham as liberdades que homens possuem.
      O conceito de práticas culturais danosas em relação à aparência, portanto, não é restrito a culturas não ocidentais. Todas as práticas culturais ocidentais consideradas neste livro, de maquiagem a labioplastia, se encaixam no critério para identificação de práticas culturais danosas. Eu argumento que elas criam papéis estereotipados para os sexos, são originadas da subordinação da mulher e são para benefício dos homens e justificadas por tradição. É certamente possível argumentar, como demonstro no capítulo 6 sobre maquiagem, que mesmo práticas que aparentam ter menos efeito na saúde de mulheres e meninas, como o uso de batom, podem ser prejudiciais. Apesar de práticas de beleza ocidentais serem raramente forçadas por violência física, elas são todas culturalmente reforçadas. Falhar em usar maquiagem e em depilar as pernas e axilas pode não ser “suicídio social” em culturas ocidentais mas irá, como sugiro no capítulo sobre maquiagem, afetar a habilidade de mulheres em conseguir e manter emprego e nível de influência social. Era exigido que as mulheres do parlamento britânico que mencionei usassem roupas femininas e que mostrassem as pernas se quisessem ter qualquer legitimidade na legislatura e era improvável que sobrevivessem se permitissem que os pelos das axilas aparecessem nas blusas ou que pelos das pernas aparecessem em suas coxas.
      Entretanto estou consciente de que o grau de dano inflingido por práticas como cirurgia cosmética e uso de batom  não é igual. A implicação de reconhecer práticas de beleza ocidentais como práticas culturais danosas é que os governos irão, como requerido pela Convenção da ONU sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra Mulheres, precisar alterar as atitudes sociais que os baseiam. Em caso de algumas práticas de cirurgia cosmética as consequências são suficientemente severas e a regulação tão facilmente efetuada por penalidades legais sobre praticantes médicos que poderiam ser terminadas através de meios legais. O uso de batom e a depilação, entretanto, não devem ser consideradas práticas isentas de ser consideradas danosas e requerem medidas, apesar de medidas legais não serem apropriadas. Elas marcam mulheres como subordinadas e claramente demonstram os papéis estereotipados dos sexos mesmo não sendo tão severas em seu impacto na saúde das mulheres. O papel dos governos comprometidos com o fim de tais práticas, ou mesmo o simples alívio do impacto da exigência culturais que devem cumprir, deve portanto ser de combater a criação de diferença sexual, em ideias e atitudes, práticas de negócios, que inscrevem essa noção na fundação da cultura ocidental.
      Em capítulos posteriores eu examino as práticas de maquiagem, salto alto e cirurgia cosmética em mais detalhes para mostrar como são reforçadas e quais são suas consequências para a saúde das mulheres e acesso a prerrogativas comuns que homens em sociedades ocidentais provavelmente nem valorizam: aparecer no espaço público com a cara lavada, correr, ter tempo de lazer livre da necessidade de manutenção do corpo. Leitores poderão tirar suas conclusões sobre incluir essas práticas na compreensão da ONU. No próximo capítulo eu amplio as definições de práticas de beleza femininas na cultura ocidental através da travestilidade/transsexualismo. A performance de práticas de beleza por homens mostra que esse comportamento não é biologicamente conectado a mulheres. Mas faz mais do que isso. Como eu procuro demonstrar aqui, praticantes masculinos obtém prazer sexual de tais práticas porque elas demonstram status subordinados. Isso apoia a compreensão de práticas de beleza como comportamentos de deferência de um grupo subordinado.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

[CAPÍTULO 2, PARTE 3] Beleza e Misoginia - Sheila Jeffreys (2005)

MAQUIAGEM E VÉU: MESMA COISA?

      Ao invés de serem dois lados da mesma moeda de opressão a mulheres, o véu e a maquiagem são mais usualmente vistos como opostos. A maquiagem pode até mesmo ser vista como a alternativa liberal ao uso do véu. Existe aparentemente uma diferença, que é, espera-se que mulheres respeitadas na cultura islâmica cubram suas cabeças e corpos para que homens não se sintam sexualmente tentados, enquanto no ocidente espera-se que mulheres se vistam e usem maquiagem para que os homens se sintam sexualmente tentados e para criar um banquete para os olhos deles. Isso pode parecer uma conexão. Tais expectativas refletem o dualismo tradicional que diz respeito à função das mulheres sob dominação masculina. Mulheres, tradicionalmente, mesmo no ocidente, devem se encaixar nas categorias virgem/vadia. Virgens estão fora dos limites até que se casem e sejam possuídas sexualmente por homens individualmente, enquanto vadias existem para servir homens em geral.
      Infelizmente até mesmo estudiosas do feminismo são algumas vezes incapazes de pensar a respeito de si mesmas fora desse dualismo para imaginar uma forma de vida autônoma para mulheres que não caia nessas categorias. Lama Abu-Odeh, por exemplo, em escritos sobre a readoção do véu em alguns países muçulmanos, diz que suas conclusões como feminista árabe são que “Mulheres árabes podem ser capazes de se expressar sexualmente, para que possam amar, brincar, provocar, flertar e excitar... Nelas, vejo atos de subversão e libertação” (Abu-Odeh, 1995, p. 527). Mas o que ela considera prazeroso, as mulheres que adotaram o véu viram como “mau”. Ao escolher para mulheres o papel de excitar homens ao invés de se cobrir, Abu-Odeh se prende na dualidade que é oferecida para mulheres sob dominância masculina, objeto sexual ou coberto, prostituta ou freira. Existe uma terceira possibilidade: mulheres podem inventar para si mesmas algo novo e fora dos estereótipos da cultura patriarcal ocidental e não ocidental. Mulheres podem ter acesso aos privilégios possuídos por homens de não ter que se preocupar com aparência e poder sair em público sem nada no rosto ou na cabeça.
      Tanto o véu quanto a maquiagem são frequentemente vistos como comportamentos voluntários das mulheres, adotados por escolha, que expressam agência. Mas em ambos os casos existe considerável evidência das pressões surgidas da dominância masculina que causam esses comportamentos. Por exemplo, a historiadora do comércio Kathy Peiss coloca que a indústria de produtos de beleza decolou nos EUA nos anos 1920/1930 pois nessa época as mulheres estavam entrando no mundo público de escritórios e outros ambientes de trabalho (Peiss, 1998). Ela enxerga que mulheres tiveram que se inventar como um sinal de sua nova liberdade. Mas existe outra explicação. Comentadoras feministas da readoção do véu por mulheres em países muçulmanos no final do século XX sugeriram que mulheres se sentem mais seguras e livres para ocupar e se movimentar no mundo público quando cobertas (Abu-Odeh, 1995). Pode ser isso que usar maquiagem signifique, que mulheres não tem o direito automático de se arriscar na vida pública da mesma forma que homens. Maquiagem, assim como o véu, assegura que elas estão mascaradas e não cometendo a afronta de se mostrarem como as cidadãs reais e iguais que deveriam ser em teoria. Maquiagem e véu podem revelar a falta de direitos das mulheres.
      Em alguns casos a adoção do véu é claramente o resultado de força e ameaça de violência. No Irã, cobrir-se é compulsório e forçado pelo Estado. Como Haleh Afshar explica “A desobediência aberta ao hijab e a aparição pública sem ele é punível com 74 chibatadas” (Afshar, 1997, p. 319). Não há sugestão de que mulheres podem “escolher” usar o véu, já que a imposição é tão clara e brutal, “Esses homens (membros do partido de Deus, os Hezbollahis) atacam mulheres que consideram estar inadequadamente cobertas com facas ou armas e elas têm sorte se sobreviverem a tal experiência.” (Afshar, 1997, p. 320). Maquiagem não é imposta com tamanha brutalidade em culturas ocidentais.
      Entretanto, como Homa Hoodfar aponta, o véu pode ser usado por diferentes razões em diferentes países e até em um mesmo país (Hoodfar, 1997). Em algumas situações nenhuma força óbvia é aplicada. Lama Abu-Odeh descreve a readoção do véu. Ela diz que nos anos 1970 mulheres “andavam pelas ruas de cidades árabes usando trajes ocidentais: saias e vestidos abaixo dos joelhos, saltos altos e luvas que cobriam o braço no verão. Seus cabelos geralmente eram expostos e elas usavam maquiagem” (1995, p. 524). Nos anos 1980 e 1990 muitas, mesmo algumas das mesmas mulheres, adotaram o véu, definido aqui como uma cobertura ou lenço na cabeça. Abu-Odeh nos diz que “seus corpos pareciam ser um campo de batalha” entre os valores do ocidente, a “construção capitalista na qual corpos femininos eram ‘sexualizados, objetificados, coisificados’ e a tradicional na qual os corpos femininos eram ‘transformados em bens, em propriedades’ e aterrorizados como garantias da honra (sexual) da família” (p. 524). As mulheres que adotaram o véu eram aquelas que precisavam usar o transporte público para trabalhar ou estudar. Elas estavam menos sujeitas a ser assediadas sexualmente por homens. Em ocasiões em que eram assediadas elas se sentiriam mais confortáveis a contestar se estivessem com o véu, pois não poderiam ser culpadas por ter incitado esse comportamento masculino abusivo. Era mais fácil para as mulheres e meninas que usavam véu se sentirem ofendidas e para os outros se sentirem ofendidos em apoio a elas se fossem vistas como inocentes vítimas que não mereciam tal tratamento. A adoção do véu pode, dessa forma, ser vista como uma forma de aliviar os danos sofridos por mulheres como resultado da dominância masculina. A escolha, todavia, surge da opressão ao invés de indicar agência.
      Hoodfar explica a readoção do véu no Egito onde não existe ameaça de punição brutal. Mulheres que, como Hoodfar coloca, “readotam o véu” tendem a ser de classe média baixa, educadas em universidades e trabalhadoras de colarinho branco no setor público e governamental. As razões dadas por Hoodfar para “readotar o véu” não sugerem que as mulheres tiveram alternativas razoáveis para tomar essa decisão. Uma mulher entrevistada por Hoodfar expressou resistência a ideia de usar o véu antes de se casar, mas na véspera de seu casamento encontrou considerável pressão por parte da família de seu futuro marido contra sair para trabalhar como professora, o que ela foi treinada para e esperava fazer. Seus futuros parentes argumentaram que se ela saísse para trabalhar “as pessoas iriam falar, e sua reputação poderia ser questionada” (Hoodfar, 1997, p. 323). Além disso ela sofreu assédio sexual, “Em ônibus lotados, homens que perderam seu respeito tradicional por mulheres podem molestá-la e claro que isso irá prejudicar seu orgulho e dignidade, bem como de seu marido e irmãos” (p. 323). Para resolver essas pressões ela decidiu se tornar muhaggaba (mulher que usa véu). Isso agradou a família do marido.
      As razões que Hoodfar oferece relacionam-se claramente com as tentativas das mulheres de se acomodar à dominância masculina. O véu, ela diz, demonstra a lealdade da mulher às regras da dominância masculina, “comunica alto e claro à sociedade em geral e a maridos em particular que a que veste está ligada à ideia islâmica de seu papel sexual” (Hoodfar, 1997, p. 323). Mulheres de véu podem trabalhar porque estão demonstrando que ainda respeitam “comportamentos e valores tradicionais”. Mulheres que usam o véu “diminuem a insegurança de seus maridos” e mostram a eles que “como esposas, não estão competindo, mas sim em harmonia e cooperação com eles” (p. 324). Em troca de todos esses sinais de obediência o véu “coloca mulheres numa posição de esperar e exigir que seus maridos honrem e reconheçam seus direitos islâmicos”. Dessa forma os maridos podem deixar que suas mulheres mantenham o dinheiro que ganharem e seu lado na barganha por “prover para a família de acordo com suas melhores habilidades” (p. 324). Nenhuma das razões dadas aqui sugere que a atividade é escolhida pois dá à mulher qualquer satisfação separada da que vem do alívio das forças da dominância masculina. Para ter o direito que homens possuem de trabalhar no mundo público, mulheres têm que se cobrir e preencher outros estereótipos e expectativas a respeito do papel subordinado da mulher.
      Outra mulher entrevistada por Hoodfar adotou o véu diretamente para evitar o assédio sexual enquanto trabalhava até tarde após estudar e tinha de pegar ônibus para chegar em casa, “As pessoas me tratavam mal tão frequentemente que eu chegava em casa a noite e chorava”. Ela decidiu pelo véu para que “as pessoas soubessem que eu sou uma boa mulher e que minhas circunstâncias de vida me forçaram a trabalhar até tarde da noite” (1997, p. 325). Procurar uma estratégia de evitar os ataques nas ruas por homens não é um exercício de livre escolha pois é acompanhado de opressão. Os homens normais que a assediariam no Egito podem ser vistos como o equivalente civil dos Hezbollahis que açoitam mulheres no Irã. Abu-Odeh explica os tipos de assédio sexual aos quais mulheres têm sido tradicionalmente expostas em cidades árabes quando não usam véu:
Infalivelmente sujeitas a atenção nas ruas e nos ônibus em virtude de ser mulheres, as encaram, assoviam para elas, se esfregam nelas e as beliscam. Comentários de homens como, “Que belos peitos você tem,” ou “Como você é linda,” são frequentes...Elas estão sempre conscientes de que olham para elas.
(Abu-Odeh, 1995, p. 526)

      Mas Abu-Odeh lembra a feministas que pensam que mulheres devem recusar o véu que isso poderia ser “suicídio social” (1995, p. 529). Mulheres muçulmanas não estavam em posição de se manifestarem contra o véu porque elas seriam vistas como defendendo o ocidente. Ela adiciona a influência de pregadores islâmicos como outra razão para readotar o véu: “Uma mulher que decide usar o véu é usualmente sujeita a uma certa doutrinação ideológica (por um pregador fundamentalista), na qual é dito a ela que toda mulher muçulmana precisa cobrir seu corpo para não seduzir homens, e assim obedecer a palavra de Alá” (p. 532). Isso pode ser visto claramente como doutrinação religiosa mas pode ser razoável questionar se esta é necessariamente mais poderosa em influenciar meninas a se cobrirem com o véu do que revistas e moda e a cultura de beleza no ocidente são em conseguir que meninas se cubram com maquiagem.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Feminismo devia vir com um sinal de aviso.

Título original: Feminism Should Come With a Warning Label
Por: Sara Schaefer 
Disponível em: https://goo.gl/nH2ffR
Tradução livre por: Laryssa Azevedo

Eu recentemente vi um post no Facebook que encorajava as meninas a falar alto. Dizendo para não rir das piadas dos garotos se não fossem engraçadas. Para se impor. Para não se desculpar. Para não sorrir se pedirem. Para ocupar o espaço. Para ser uma “mulher durona”.

Esses tipos de mensagens inspiracionais girl-power tem dominado minha timeline por meses, agora obviamente porque estamos vivendo um pesadelo no qual o sexismo personificado está concorrendo à presidência contra a primeira candidata mulher. Parece uma piada perfeitamente construída. A ironia parece um pouco nítida demais às vezes, como se esse fosse um roteiro de uma série da Shondaland. E não termina nunca; estou remando num mar de manchetes ruins, onda após onda de palavras e ideias que prejudicam atingindo meu rosto. Isso está, de fato, nos deixando doentes.

Então eu entendo a necessidade de uma convocação feminista, por discursos motivadores e poesia e quotes do Pinterest. Uma série de chavões jogados como coletes salva-vidas após um naufrágio. Peguem-nos. Segurem neles, tentem não afundar.

Mas muitas vezes há um vazio nessas mensagens. Eu sinto um pouco de aflição toda vez que as leio. Pois essas mensagens nunca vêm com um sinal de aviso. 

Eu tenho sido uma estranha menina franca durante toda minha vida. Eu não queria ser, sério. Tudo o que eu queria enquanto crescia era ser popular e adorada pelos garotos e bonita e doce. Ao invés disso, cada centímetro do meu ser me forçava em outra direção. Eu não estava fazendo conscientemente uma afirmação feminista “brava” por nunca conseguir entender o que fazer com o cabelo. Eu segui algumas das normas de gênero facilmente, mas na maioria das vezes, era uma batalha perdida. Eu nem mesmo me encaixava nos moldes Tomboy, o que era legal e desejável e ao menos fazia sentido. Eu estava apelas flutuando por aí em algum lugar no meio. Era solitário. Eu era a menina que se fantasiava de espinha no Halloween da oitava série. Essa não era uma escolha que uma garota popular faria. Essa era a escolha de uma garota que pensou que seria engraçado, mesmo que ninguém mais tivesse entendido a piada (e acredite em mim, ninguém entendeu). Minha mãe frequentemente me dizia que eu estava “a frente do meu tempo”. Era um jeito legal de dizer “você é estranha pra caramba”. Minha memória geral de meninos durante essa época era dos olhares confusos em seus rostos sempre que eu falava ou me movia. Eu não era a garota legal e não era uma garota das garotas também. Era apenas eu e nenhuma influência me faria mudar.

Esse sentimento de nunca pertencer a lugar algum me seguiu até a fase adulta e em minha carreira profissional. E agora que eu li cada escrito feminista do planeta sobre microagressões, clube dos meninos, e sexismo internalizado, institucional, sistemático e assustador, muito disso me deixou com o estranho sentimento confuso de “oooh agora tudo faz sentido” e “meu deus do céu”. Eu consigo enxergar o tabuleiro agora, mas também consigo enxergar que é impossível vencer.

Então, quando eu vejo essas instruções muito simplistas em ponto de cruz de “SEJA UMA MULHER DURONA!”... meu coração dá um pequeno suspiro. Porque o lema nunca é seguido de “Mas esteja pronta para o que isso traz”.

Mesmo que o feminismo seja a modinha do momento agora, e que você não esteja arriscando muito socialmente ao se identificar como tal, você deveria saber: se realmente vai fazer isso, e viver isso, você deveria ler os sinais de aviso primeiro.

FALE ALTO!

Aviso: fale alto, mas tipo, pode ser alto de um jeito fofo e sexy? Isso vai tornar mais fácil. Certifique-se que seu grito esteja coberto de açúcar. Os garotos com certeza adoram açúcar! Mas mesmo assim, eles podem cuspir. Na verdade, não importa qual seja sua mensagem, a maioria das pessoas irá preferir que você abaixe um pouco o tom.

NÃO DEIXE QUE HOMENS INTERROMPAM VOCÊ!

Aviso: quando você se impõe, eles não gostam nem um pouquinho. Recentemente eu estava em uma reunião e o tópico feminismo surgiu. Durante a conversa, eu era repetidamente interrompida por vários homens. Quando fiz piada apontando que o que eles estavam fazendo era um exemplo do problema, me disseram “bom, talvez você esteja sendo muito interrompida porque nunca para de falar”. Eu quis gritar.
(Além disso, posso falar que dizer para mulheres “não deixe homens interromperem você” é absurdo. “Use a telepatia para entrar no cérebro do homem e mudar seu comportamento! Você consegue garota!”)

OCUPE ESPAÇO!

Aviso: existe um pequeno espaço para você. Quando você ocupa mais espaço do que o atribuído, você sentirá o aperto. É física simples. Não apenas você vai sentir como vai deixar hematomas. Durante os últimos anos, eu tenho feito apresentações para programas de TV. Você se surpreenderia com a frequência com a qual a frase “nós realmente queremos projetos liderados por mulheres” é seguida rapidamente de “mas, isso é provavelmente feminino demais”. Você começa a subconscientemente começar suas apresentações reconhecendo que você é uma mulher, e que isso com certeza é um problema, mas podemos superar totalmente! Todo mundo está falando muito sobre quebrar barreiras para mulheres atualmente, mas em muitos lugares, os muros estão firmes em seus lugares. Você frequentemente sentirá a necessidade de se desculpar apenas por estar lá.

NÃO RIA DAS PIADAS IDIOTAS QUE HOMENS FAZEM!

Aviso: rir das piadas idiotas dos homens pode abrir muitas portas para você. Quando você é a estraga prazeres, você é deixada de lado e ignorada. Ninguém quer uma chata por perto. Eu passo por isso muitas vezes: sempre que um comediante homem se mete em algum tipo de problema com o público, as pessoas esperam que comediantes feministas assumam um lado, defendendo o homem até seu último suspiro ou entrando para o clube dos justiceiros, sendo banida para sempre da mesa dos descolados. Quando você decide ser uma feminista neste mundo, esteja pronta para constantemente ter que fazer escolhas em espaços que não permitem sutilezas.

APOIE OUTRAS MULHERES!
Aviso: muitas das outras mulheres já vão te odiar por todas as coisas listadas acima. Seu comportamento será um inconveniente para que elas continuem operando confortavelmente no clube dos meninos. Seu esforço para ocupar mais espaço soará como uma invasão no espaço delas. Algumas delas não vão valorizar o seu apoio porque você tem uma doença que elas não querem pegar. Ah, e você vai precisar decidir se realmente quer encarar – porque quando você escolhe verdadeiramente apoiar outras mulheres, meio que perde o direito de ser escrota com elas por trás dos panos.

SEJA UMA CHEFE DURONA!

Aviso: quando você inicia sua nova vida como uma Chefe Durona, você irá constantemente se perguntar “O que isso significa? Eu ainda posso tirar sonecas?” Você nunca saberá se está sendo “feminista o suficiente”. E a lista crescente de compromissos que pedirão para você assumir só para passar por um dia irá te devorar. Você conseguirá progredir um pouquinho se está tão atolada em seus próprios princípios que ninguém te vê ou escuta? Você pode ser bem sucedida sem ao menos jogar o jogo deles um pouquinho? Você consegue lutar pelo próprio empoderamento enquanto dá espaço para outros menos privilegiados que você? Estou liberada para cometer erros?

Eu não estou tentando fazer você se sentir mal por imprimir sua citação feminista favorita e colar em seu cubículo. Se esses lemas tem mantém a salvo, faça isso. Só estou dizendo, você colocou o colete salva-vidas, e agora? Você ainda tem que nadar até a costa.



Eu acho que a coisa que mais machuca sobre essa eleição é só o quão duras as pessoas estão tornando as coisas para Hillary Clinton. Que esse país odeia tanto as mulheres que isso poderia até virar um concurso. Que tão poucas pessoas estão dispostas a ao menos examinar seus preconceitos contra ela. Que ela tem que lidar com algumas das táticas mais vis que já vimos na política americana. Mas droga, ela conseguiu. Ela chegou até aqui, não porque leu algum lema feminista. Ela chegou até aqui porque ela leu os sinais de aviso e decidiu fazê-lo de qualquer forma.

Estou com ela. Foda-se se você tem um problema com isso.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

[CAPÍTULO 2, PARTE 2] Beleza e Misoginia - Sheila Jeffreys (2005)

A CULTURA OCIDENTAL OFERECE “ESCOLHA”?
     Práticas culturais danosas são vistas como existentes em culturas nas quais mulheres não têm escolha. A ideia de que práticas tradicionais danosas “escolhidas” podem ser distintas das forçadas não se encaixa bem na compreensão das Nações Unidas do que constitui tais práticas. A noção de práticas culturais danosas é baseada na ideia de que a cultura pode coagir e que mulheres e meninas não são agentes livres capazes de escolher. Nos anos 90, no ocidente, entretanto, a ideologia do liberalismo ocidental e os sistemas econômicos de livre mercado do capitalismo individual defendidos por ele, foram forças potentes na transformação de críticas políticas que reconhecem desigualdade e opressão como limites à escolha e à oportunidade (ver Jeffreys, 1997b). Essa ideologia é tão abrangente que afetou a discussão de Radhika Coomaraswamy sobre práticas danosas fora do ocidente em seu relatório de 2002. O relatório inclui códigos de vestimenta que impõem roupas que cobrem o corpo de mulheres como a burca como práticas culturais danosas. Elas são danosas porque “restringem o movimento das mulheres e seu direito de expressão” e porque são prejudiciais à saúde, “Tais vestimentas podem causar asma, aumento da pressão sanguínea, problemas na audição ou visão, assaduras na pele, queda de cabelo e um declínio geral na condição mental” (Coomaraswamy, 2002, p. 28). Recentemente outra preocupação com a saúde surgiu. Médicos escreveram em Lancet sobre o aumento da incidência de raquitismo, condição na qual os ossos ficam fragilizados devido a falta de vitamina D, explicando que, no oriente médio, existem “muitas mães com a forma adulta de raquitismo e crianças com raquitismo também” como resultado de mulheres sendo obrigadas a cobrir seus corpos, ficando sem receber luz natural do sol em sua pele. (Lichtarowicz, 2003).
     No entanto, Coomaraswamy comenta, tais códigos de vestimenta só são um problema quando são “impostos sobre as mulheres e se a punição é autorizada para quem não usa a incômoda vestimenta” porque nesse caso “os direitos de escolha e expressão são claramente negados” (2002, p. 29). A noção de escolha que ela emprega não engloba os tipos de pressão para vestir roupas restritivas que é discutido mais tarde neste capítulo, como assédio em locais públicos que só pode ser aliviado dessa forma. Cobrir-se pode reduzir este tipo de atrito mas não é consequentemente um sinal de liberdade como é uma acomodação à opressão. A introdução de Coomaraswamy à noção de “escolha” é preocupante pois dilui um dos aspectos mais úteis da noção de práticas culturais danosas, a irrelevância de tais noções ocidentais onde expectativas e práticas culturais agem como executores.
     Mesmo a bem respeitada filósofa política feminista estadunidense, Martha Nussbaum, usa o argumento da “escolha” para distinguir práticas de beleza ocidentais, as dietas em particular, das de fora do ocidente. Nussbaum argumenta que práticas como mutilação genital feminina (FGM) não podem ser vistas como “moralmente equivalentes a práticas de dieta e modelagem corporal na cultura americana” (Nussbaum, 2000, p. 121). Ela afirma que as diferenças entre a FGM e dietas são tão consideráveis que invalidam tal discussão. As distinções que ela faz se relacionam a questão da escolha, o que ela considera prevalecer no ocidente em relação a dietas, e ao grau de prejuízo à saúde envolvido nas práticas. Ela diz que FGM é “forçada, enquanto dietas em resposta a imagens culturalmente construídas são uma questão de escolha, mesmo que a persuasão seja sedutora” (2000, p. 122). Ela argumenta que a FGM é irreversível enquanto as dietas não são. Ela diz que a FGM é feita em condições perigosas e insalubres, diferente das dietas, e considera que os problemas de saúde ligados à FGM, que podem incluir a morte, são tão mais severos que a comparação é inapropriada. Nussbaum também diz que porque a FGM é usualmente feita em crianças, consentimento não é uma questão. Ela detalha as distinções no grau de instrução feminino nos Estados Unidos e em alguns países da África como base para argumentar que mulheres africanas não têm acesso à escolha e consentimento da mesma forma que mulheres dos Estados Unidos têm. Ela diz que FGM significa “a perda irreversível da capacidade para um tipo de função sexual” que é, presumivelmente, uma perda maior do que a ligada a dietas. Ela argumenta, finalmente, que FGM está “inegavelmente ligada a costumes de dominação masculina” aos quais ela indica que dietas não estão. Ela tem outros argumentos mais gerais para enxergar a FGM como um abuso mais significativo dos direitos das mulheres em comparação a práticas de beleza. Ela diz que feministas nos Estados Unidos têm criticado desproporcionalmente práticas de beleza ocidentais enquanto dão menos atenção à FGM, e que é dever das feministas preocupar-se com o destino de suas irmãs fora da cultura ocidental ao invés de apenas consigo mesmas.
     Seria difícil discordar de Nussbaum que feministas deveriam se preocupar com os direitos humanos de suas irmãs em outros países. Eu argumentaria, entretanto, que as críticas feministas ocidentais às práticas culturais danosas em outras culturas precisam ser fundamentadas em uma profunda crítica a tais práticas em sua própria cultura. Os argumentos de Nussbaum a respeito do motivo pelo qual a dieta não deveria ser comparada a FGM não são convincentes. A dieta ocidental causa danos duradouros à saúde, particularmente quando é levada ao extremo em distúrbios alimentares que podem causar a morte. Um estudo de 2001 reportado em Lancet, por exemplo, conclui que cinco (2%) das pacientes com distúrbios alimentares que foram entrevistadas no começo da pesquisa morreram durante o período seguinte de 5 anos (Bem-Tovim et al., 2001, p. 1254). Similarmente, práticas de cirurgia cosmética podem levar a sérios problemas de saúde, como Elizabeth Haiken documenta no caso de implantes de seios (1997). Labioplastia, assim como FGM, pode levar a dificuldades na funcionalidade sexual. O argumento de Nussbaum sobre o grau de “escolha” das mulheres pode ser visto como revelador de um discurso ocidental de acordo com o qual mulheres no ocidente são tão favorecidas que podem “escolher” e dessa forma quaisquer práticas culturais impostas a elas não são tão severas como as impostas em algumas culturas africanas. Este é um problema fundamental no pensamento feminista liberal de que relações de poder em culturas ocidentais são colocados como simples “pressões” que mulheres têm a educação para rejeitar (Jeffreys, 1997b).
     Algumas feministas liberais individualistas podem encontrar evidência da “escolha” das mulheres mesmo nas situações mais improváveis. Uma delas é a prática da cirurgia de reparação do hímen no ocidente. A cirurgia de reparação do hímen é feita para criar uma virgindade artificial em mulheres de culturas nas quais sangrar é um requisito na noite de núpcias para evitar a vergonha que seria para uma noiva e sua família a perda da “honra”. A penalidade para a perda da honra pode ser uma “execução por honra” na qual a mulher é morta por membros homens da família. Imigrantes no ocidente provenientes de tais culturas podem obter a reparação do hímen pelos mesmos cirurgiões que realizam labioplastia em mulheres influenciadas pela pornografia a considerar seus lábios vaginais feios. Em seu artigo sobre a prática da reparação do hímen na Holanda no século XXI, Sawitri Saharso argumenta que meninas que fazem a cirurgia de reparação do hímen são “agentes morais que podem escolher” (Saharso, 2003, p. 20). Feministas deveriam, ela diz, respeitar “as escolhas de outras mulheres, mesmo que não concordemos com elas. Isso por sua vez significa que disponibilizar a reparação do hímen é um ato de multiculturalismo e bom feminismo” (p. 21). As meninas são “agentes moralmente competentes que fazem uma escolha e são capazes de afirmar suas preferências” (2003, p. 21). A reparação do hímen está atualmente disponível gratuitamente no serviço de saúde da Holanda e Saharso considera isso como “uma medida política culturalmente sensível que reconhece o sofrimento culturalmente informado” (p. 21).
     O conceito de “escolha” que Saharso coloca é tão empobrecido que é difícil conceber o motivo pelo qual qualquer pessoa o chamaria de “escolha”. Por exemplo ela cita como base para seu argumento sobre meninas “escolhendo” a cirurgia de reparação de hímen uma escritora holandesa que diz que pode-se dizer que elas podem escolher porque elas têm outras opções como deixar a comunidade:
     Ela sugere que deixar a comunidade não necessariamente significa tornar-se uma prostituta, pois existem abrigos na Holanda para meninas e mulheres que fugiram. Dessa forma, é somente quando as meninas querem permanecer na família e na comunidade, e presumindo que a família da menina é impiedosa somo ela pressupõe, é que a operação é a única solução disponível.
(citado em Saharso, 2003, p. 19)

     Meninas de comunidades imigrantes provavelmente precisam do apoio de famílias e comunidades mais do que as que pertencem a cultura dominante. Dessa forma, a afirmação casual de que meninas seriam capazes de fazer uma escolha razoável entre o status de banidas no qual elas podem ter que se esconder por uma vida inteira de uma família procurando vingança pela vergonha causada, e fazer uma cirurgia que as possibilitará permanecer, é bastante surpreendente. Essas “escolhas” não são equivalentes em suas implicações e a sugestão de Saharso de que elas deveriam ser consideradas como tal demonstra a lógica estranha que pode resultar da fetichização da escolha na teoria liberal ocidental. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

[CAPÍTULO 2, PARTE 1] Beleza e Misoginia - Sheila Jeffreys (2005)

PRÁTICAS CULTURAIS DANOSAS
     O conceito da ONU de práticas culturais/tradicionais danosas tem como objetivo identificar práticas que são culturalmente toleradas como formas de violência e discriminação contra mulheres. O conceito é conservado na muito importante e única convenção “de mulheres” – a Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra Mulheres (CEDAW; ONU, 1979). O artigo 2(f) da CEDAW determina que partidários da Convenção irão “tomar todas as medidas apropriadas, incluindo legislativas, para modificar ou abolir leis, regulações, costumes e práticas existentes que constituem discriminação contra mulheres”. O CEDAW também instrui os Estados que fazem parte a adotar medidas como:
     Modificar padrões culturais e sociais de conduta masculina e feminina, visando atingir a eliminação de preconceitos e hábitos e todas as outras práticas baseadas na ideia de inferioridade ou superioridade de qualquer um dos sexos ou papéis estereotipados para homens e mulheres
(ONU, 1979, art. 5(a))
     A definição de práticas habituais aqui é suficientemente extensa para incluir práticas de beleza. Práticas de beleza são o principal instrumento através do qual a “diferença” entre os sexos é criada e mantida. Elas criam o papel estereotipado de objetos sexuais e de beleza para mulheres, que têm que gastar muito tempo e dinheiro em maquiagem, penteados, depilação, cremes e loções, moda, botox e cirurgia cosmética. Homens se envolvem na maioria das práticas de beleza descritas neste livro apenas pela satisfação sexual que ganham com a travestilidade masoquista. Não é exigido deles que usem maquiagem para trabalhar, ou saltos altos para agradar a classe sexual dominante. Na verdade, como veremos no Capítulo 3, a travestilidade masculina causa consideráveis problemas para mulheres ao invés de estimular a excitação sexual. A não ser que aceitemos que as mulheres são biologicamente programadas para adotar práticas de beleza, estas precisam ser compreendidas como práticas culturais que são exigidas de mulheres. Todas as práticas exigidas de uma classe sexual ao invés da outra podem ser examinadas por seu papel político em manter a dominação masculina.
     O conceito de práticas culturais/tradicionais danosas foi refinado em alguns documentos da ONU nos anos 90. Uma definição estendida de práticas tradicionais danosas é oferecida em um documento da ONU de 1995:
     Mutilação genital feminina (FGM); alimentação forçada de mulheres; casamentos muito cedo; os vários tabus ou práticas que impedem mulheres de controlar sua própria fertilidade; tabus nutricionais e tradicionais métodos de parto; preferência pelo filho homem e suas implicações no status da menina; infanticídio feminino; gravidez prematura; e dote
(ONU, 1995, pp. 3-4)
     Algumas das práticas descritas no documento têm analogias no ocidente. Alimentação forçada, por exemplo, que prepara meninas para o casamento em culturas nas quais corpos gordos são considerados atraentes por homens, carrega algumas semelhanças com as práticas de beleza ocidentais. É instrutivo compará-la com o que o que aparentemente é seu oposto, passar fome, prática mais provavelmente adotada pelas meninas e mulheres ocidentais para se aproximar do padrão cultural de atratividade. Na cultura ocidental mulheres estão sujeitas a restringir a alimentação por semanas ou meses para caber em seus vestidos de casamento ao invés de aumentar o consumo de alimentos. O documento explica de forma útil como tais práticas foram originadas e isso pode iluminar as origens das práticas de beleza também.
     Práticas culturais danosas são, de acordo com a definição da ONU, prejudiciais à saúde de mulheres e meninas. Os consequentes danos à saúde de práticas como mutilação genital feminina são bem documentados (Dorkenoo. 1994). O dano resultante das práticas de beleza no ocidente pode não ser tão imediatamente claro ou severo. Entretanto, existe considerável evidência do prejuízo à saúde consequente de práticas de cirurgia cosmética como implante nos seios (Haiken, 1997), comum no ocidente. As consequências psicológicas danosas das práticas de beleza não estão documentadas porque tais práticas não são consideradas problemáticas, mas provavelmente são considerável parte na construção da feminilidade subordinada da mulher.
     A concentração nas consequências na saúde de tais práticas surge da tendência do ocidente a querer que o dano seja sujeito a fácil medição. O dano ao status das mulheres como cidadãs iguais é menos fácil de medir mas é um provável resultado de todas as práticas culturais baseadas em subordinação feminina. O trabalho de Ruth Lister sobre cidadania feminina, por exemplo, sugere que o papel de dona de casa e as exigências provenientes dele de que mulheres exerçam várias formas de trabalho não remunerado prejudica severamente o status das mulheres como cidadãs enquanto apoia a cidadania masculina (Lister, 1997). O trabalho extra que mulheres realizam em práticas de beleza e os efeitos dessas práticas nas formas em que elas podem ocupar o espaço público, sentir sobre si mesmas, e intervir na vida pública, podem ser incluídos nesta análise. O trabalho de Nirmal Puwar sobre a experiência de membros femininos no parlamento do Reino Unido mostra que a prática da feminilidade na aparência é vital para elas quando tentam sobreviver naquela cultura extremamente masculina (Puwar, 2004). Uma mulher membro do parlamento que ela entrevistou explica que mulheres são investigadas e marcadas como objetos sexuais e que “a sexualidade das mulheres as acompanha o tempo todo” (Puwar, 2004, p. 76). Os membros do parlamento estão, Puwar argumenta, “sob pressão para reproduzir diferenças de gênero, através de formas materializadas de formas corporais de vestimenta, enfatizando uma forma aceitável de aparência feminina” (p. 176). Um impacto é que elas sofrem constantes comentários, mas é provável que existam efeitos mais adiante, não examinados aqui, de ter que ser tão clara e proeminentemente mulheres, vestindo o estigma desconfortável de sua condição subordinada enquanto procuram ser efetivas no gorverno.
     O documento da ONU diz que práticas culturais danosas são, “consequência do valor colocado em mulheres e meninas pela sociedade. Elas persistem em um ambiente onde mulheres e meninas têm acesso desigual à educação, saúde, bens, e emprego” (ONU, 1995, p.5) Em culturas ocidentais o valor colocado em mulheres e meninas é claramente diferente do colocado em homens humanos. Acesso desigual à educação pode não ser um problema tão grande mas acesso desigual a bens e empregos persiste. A média semanal do salário total individual para mulheres no Reino Unido em 2000/1, por exemplo, era £133, comparado a £271 para homens (Carvel, 2002). O valor mais baixo de mulheres e meninas é demonstrado em violência doméstica e todas as outras práticas de violência contra mulheres e meninas, na existência da pornografia e outras formas da indústria do sexo. Práticas de beleza ocidentais, eu sugiro, surgem desse valor menor. Maquiagem e sapatos de salto alto, labioplastia e implantes nos seios são resultado do valor colocado nas mulheres e meninas ocidentais, no qual os corpos das mulheres são modificados e decorados para mostrar que mulheres são membros da classe subordinada que existe para o prazer masculino.
     Outro critério que o documento da ONU dá para o reconhecimento de práticas culturais/tradicionais danosas é que elas “refletem valores e crenças mantidas por membros da comunidade por períodos que frequentemente abrangem gerações” e que são “para benefício dos homens” (ONU, 1995, p. 3). Práticas de beleza refletem valores e crenças de longa data sobre mulheres, ainda que as práticas as quais mulheres estão sujeitas mudem com o tempo. A exigência de que mulheres alterem e adornem seus corpos pelo bem da “beleza” não muda, por exemplo, ainda que os corsets como instrumento de modelagem da anatomia feminina para ênfase dos seios tenha cedido lugar para implantes de seios (Summers, 2001). A ideia de “beleza” como algo que mulheres devem incorporar para a excitação sexual masculina, seja natural ou artificialmente, está profundamente engendrada na cultura ocidental.
     As práticas de beleza podem razoavelmente ser entendidas como sendo para benefício dos homens. Mesmo que mulheres no ocidente às vezes digam que escolhem se envolver em práticas de beleza para benefício próprio, ou para outras mulheres e não para homens, os homens se beneficiam de várias formas. Eles ganham a vantagem de ter seu status de classe sexual superior demarcado, e a satisfação de ser lembrados de sua superioridade toda vez que olham para uma mulher. Eles também ganham a vantagem de ser sexualmente estimulados por mulheres “lindas”. Essas vantagens podem ser resumidas pela compreensão de que é esperado que mulheres estejam sempre “complementando” e “cumprimentando” homens. Mulheres complementam homens por ser o sexo “oposto” e subordinado. Mulheres cumprimentam homens estando preparadas para fazer o esforço de enfeitar a si mesmas para a excitação sexual masculina. Dessa forma, homens podem se sentir com a masculinidade definida e bajulados pelos esforços das mulheres e, se as mulheres estão usando saltos altos por exemplo, aguentam dor para a satisfação deles. As mulheres que recusam as práticas de beleza não oferecem nem complemento nem cumprimento e sua resistência pode ser profundamente ressentida por membros da classe sexual dominante.
     Práticas culturais danosas “persistem” como o documento da ONU nos diz, “porque não são questionadas e assumem uma aura de moralidade nos olhos de quem as pratica” (ONU, 1995, p. 3). Práticas de beleza no ocidente são certamente raramente questionadas. Elas são entendidas como naturais e inevitáveis, justificadas através da história e da cultura como algo inerente à biologia feminina (Marwick, 1988). A rejeição dessas práticas cria raiva e zombaria, como referências a feministas como incendiárias de sutiã, feias, de pernas peludas, que não conseguem arranjar um homem. Práticas de beleza ocidentais possuem a moralidade da natureza. Mulheres que falham em praticá-las podem ser vistas como “perdidas”, vergonhosas, desnaturadas e uma ameaça ao tecido social.
     A relatora especial da ONU sobre violência contra a mulher, Radhika Coomaraswamy, explica que as tentativas dos Estados de modernizar suas economias frequentemente deixam intactos os abusos dos direitos das mulheres em forma de práticas tradicionais (Coomaraswamy, 1997). No ocidente houve um considerável desenvolvimento do que, na compreensão ocidental, representa economia, tecnologia e democracia “modernas”, e ainda assim as práticas de beleza que são indiscutivelmente um dano considerável a mulheres e meninas prosperam e formam a base de indústrias muito significativas. Ao invés de a economia moderna diminuir de alguma forma as práticas danosas, ela as explora em cosméticos e moda por exemplo, para gerar lucros muito consideráveis. Dessa forma a economia moderna aumenta muito a dificuldade de eliminar práticas danosas. The Economist estimou que a indústria global da beleza em maio de 2003 valia 160 bilhões de dólares (The Economist, 2003).
     Em 2002, Coomaraswamy produziu um novo e longo relatório sobre práticas culturais danosas. De forma geral o relatório segue o discurso ocidental de documentos anteriores, entretanto as práticas de beleza ocidentais têm um parágrafo inteiro dedicado a elas aqui. O relatório diz que “Em muitas sociedades, o desejo pela beleza tem frequentemente afetado mulheres de diversas formas” (Coomaraswamy, 2002, p. 31). Isso enfoca especificamente práticas de beleza no ocidente na forma com que exigem magreza, “No mundo ocidental do século XXI o mito de beleza no qual o tipo físico feminino magro é o único aceito é imposto a mulheres pela mídia por meio de revistas, propaganda e televisão”, e pela propaganda sexista. O que o relatório chama de “cultura de ideais impraticáveis” resulta, segundo ele, em “muitas práticas que causam abusos ao corpo feminino” e separa para mencionar “cirurgia cosmética em toda parte do corpo feminino” que “leva a problemas de saúde e complicações para muitas mulheres”. Essa menção, ainda que apressada, pode ser uma indicação de que a necessidade de incluir algumas práticas de beleza ocidentais entre aquelas que Coomaraswamy descreve como violações aos “direitos humanos das mulheres à integridade do corpo e à expressão, minando valores essenciais de igualdade e dignidade” está sendo reconhecida (2002, p. 3).
     Entretanto, ela inclui apenas práticas não ocidentais na categoria que identifica como mais sérias. Essa é a categoria de “práticas culturais que envolvem ‘dor e sofrimento severos’ para a mulher ou criança, que não respeitam a integridade física do corpo feminino” e “devem receber máximo escrutínio e agitação internacional” (Coomaraswamy, 2002, p. 8). Isso inclui “mutilação genital feminina, assassinato por honra, Sati ou qualquer outra forma de prática cultural que brutaliza o corpo feminino” (p. 8).

     Existem algumas práticas não ocidentais descritas no relatório que podem ser comparadas a práticas muito similares que estão rapidamente se tornando componentes comuns da beleza ocidental. Por exemplo, nos é dito que “As mulheres Tutsi em Ruanda e Burundi seguem a prática de alongamento dos lábios vaginais com o objetivo de permitir que as mulheres tenham maior prazer sexual” (Coomaraswamy, 2002, p. 12). Isso tem algo em comum com a prática da labioplastia no ocidente. Na cirurgia cosmética de labioplastia, cirurgiões cortam partes dos pequenos lábios para “embelezar” as genitálias femininas. Isso não é uma prática que pode ser explicada ou justificada em termos de tradição, porque é de origem recente, mas em grau de mutilação, dor e potenciais complicações se assemelha a mutilação genital feminina e forma um alarmante contraste com o costume Tutsi. No ocidente, na literatura de propaganda de cirurgiões de labioplastia, é dito que lábios longos inibem o prazer sexual em geram vergonha. Coomaraswamy usa a linguagem da dignidade humana para descrever o dano das práticas tradicionais. É dito que tais práticas violam a dignidade feminina (Coomaraswamy, 1997). O conceito de “dignidade” feminina é importante e a ideia de “dignidade” humana é fundamental para a teoria e prática dos direitos humanos. Essa é uma medida útil com a qual comparar práticas de beleza como labioplastia. Apesar de haver analogias no ocidente a muitas das práticas não ocidentais descritas no relatório (Wynter et al., 2002), elas provavelmente são omitidas na literatura da ONU. Isso se deve, eu sugiro, a um discurso ocidental que identifica práticas culturais danosas no ocidente como um reflexo da escolha das mulheres ao invés de ser reforçadas por ameaça de punição ou decreto religioso.